Ocupação da Reitoria na USP
Tenho lido notícias e comentários sobre o mencionado assunto na Internet. Alguns tão absurdos a ponto de “temos de parar de sustentar esses vagabundos da USP com nossos impostos”, e por ai vai. Antes de entrar no tema em si, é conveniente abordar a questão do comportamento da sociedade brasileira, a opinião popular, o pensamento do povão.
O Brasil é, culturalmente, um dos países mais conservadores e moralistas do mundo. Se tornamo-nos independentes, não foi pela vontade popular, que sempre foi indiferente, alheia e irrelevante à política, mesmo depois de estabelecida a democracia; tal fato histórico (declaração da independência) foi decorrente de tramas políticas da família real, ou seja, um movimento aristocrático, elitista. E, dessa forma, ao contrário de todo o resto da América, tornamo-nos independentes apenas para continuar sendo governados por uma monarquia. Todos os demais países americanos fundaram repúblicas. A nossa república foi fundada apenas 67 anos depois da independência. Não bastasse isso, continuamos por décadas no sistema escravista. Fomos um dos últimos países do mundo a abolir a escravidão. Isso apenas ilustra como somos culturalmente extremamente conservadores.
Não é de se estranhar que o principal valor nacional do Brasil é, e sempre foi, a ordem, em detrimento da liberdade. Isso está até explícito em nossa bandeira. Quanto ao progresso, tenho minhas dúvidas. Mas o fato é que o Brasileiro não é um povo disposto a sacrificar a ordem em troca de liberdade.
Conversando com cidadãos ordinários que viveram a época da ditadura, é notável que a maioria deles apóie a ditadura. Muitos deles gostariam de tê-la de volta, convictos de que isso eliminaria a criminalidade. Quem é contra a ditadura no Brasil? Certamente, não é o povo. São os estudantes, os artistas – obviamente que refiro-me a artistas questionadores e não às celebridades fúteis que se proliferam atualmente e, mais nos bastidores, a própria elite financeira, parte dela de ideologia liberal. Em outras palavras: a elite intelectual. O povão mesmo, não está nem ai. Quem lutou contra e derrubou a ditadura foi a elite intelectual.
E se houve um movimento popular considerável pelas “Diretas Já”, o povo foi levado a dele participar unicamente por políticos carismáticos. Não teria força ou interesse para organizar, ele próprio, tal movimento.
Nos últimos anos, assistimos a um crescimento vertiginoso dos evangélicos, radicalizando ainda mais a postura moralista da população. Se na época da ditadura era a igreja católica que acusava os socialistas de comedores de crianças, hoje são os evangélicos que assumem o papel de demonizar todos os movimentos modernizadores. Não há um projeto liberal que a bancada evangélica permita que seja aprovado. Assim, o povo vê com bons olhos repressões policiais violentas. A ação violenta e repressiva, na visão do povão, não chega a ser um problema, mas é visto como um combate ao problema da criminalidade: imagina-se que a polícia deveria ser até mais violenta, como se já não fosse uma das mais violentas do mundo, para poder combater melhor a criminalidade.
O moralismo pode ser útil para preservar a ordem. Em outras palavras, para negar ao povo novos direitos, para manter uma jornada de trabalho alta, para manter impostos altos, para manter o povo em um alto grau de servidão com relação ao governo, sem se revoltar. Se o próprio povo concorda e aprecia a servidão, estranho seria se vivêssemos em um país avançado socialmente. Ainda assim, existem as tais correntes modernizadoras; tais correntes estão, no entanto, restritas à elite intelectual. Mesmo assim, tais correntes têm força política, apesar da falta de apoio popular. Isso porque o povão, como dito anteriormente, é indiferente às idéias; se vota, se há uma democracia instituída, vencem as eleições os candidatos mais carismáticos. Pouco importa a ideologia. Conceitos de esquerda e direita, capitalismo e socialismo, democracia, liberalismo e reacionarismo, etc. não fazem parte do vocabulário popular. Assim, acontece de candidatos das mais diversas ideologias, aleatoriamente, ocuparem os mais diversos cargos, unicamente devido ao seu carisma – para dar um de muitos infelizes exemplos, Tiririca -, possibilitando a convivência, no jogo da política, tanto de forças liberais quanto de forças reacionárias – apesar do povo ser, naturalmente, reacionário. O povo não sabe que é reacionário, não sabe nem o que é isso, mas é.
E, não é de se espantar que também nunca foi um povo muito fã da ciência. Nunca valorizou o conhecimento. Ainda que pelo esmero de alguns poucos tenham sido fundadas algumas das instituições mais importantes desse país – refiro-me às universidades públicas – o pessoal não parece reconhecer muito a utilidade delas. Para o povão, faculdade é faculdade, tanto faz se pública ou particular; ignora a questão da produção científica, da produção de conhecimento, do questionamento da sociedade. Tudo isso é visto como secundário. A própria educação primária é vista como algo não muito importante, e não é de hoje a idéia “estudante não trabalha”. Todos os países ou mesmo famílias e indivíduos – salvo por algumas excepcionais jogada de sorte – que prosperaram, foi pela dedicação ao conhecimento.
Isso explica como quase todas as opiniões populares sobre os acontecimentos mais recentes na USP são contra os estudantes e a favor da PM. Na verdade, eu também fui estudante, em São Carlos. Sei bem que o povão nunca gostou muito dos estudantes. Dependesse da população nativa, as universidades públicas sequer teriam sido instaladas na cidade. São Carlos seria uma Descalvado maiorzinha – nada mais do que isso. O país como um todo perderia boa parte de sua produção científica. Ainda assim, o povo prefere a ordem.
O fato é que a universidade é a instituição que representa a intelligentsia de um país. No caso do Brasil, esse papel é exclusivo das universidades públicas, pois as particulares, dada sua natureza mercantilista, são meras produtoras de profissionais não dispostos e nem capazes de questionar. Apenas a universidade pública pensa a sociedade, debate teorias, questiona com interesse a situação, a ordem, a estrutura do mundo. A universidade naturalmente vai contra o princípio da ordem, justamente por que questionar é contra o princípio da ordem. Quando surge uma nova idéia, ela causa abalo, instabilidade na sociedade. A universidade faz isso, ao criar suas novas correntes modernizadoras. E é por isso que a universidade é mal-vista pelo povão: por que ela questiona o sistema. Por que ela é liberal, e jamais seria capaz de ser inovadora – inovadora em um sentido real e universal, e não no clichê sem sentido empresarial – sem essa característica.
E são principalmente as ciências humanas que atacam a ordem. As ciências exatas normalmente estão produzindo ciência, sem questionar o sistema. Estão criando novas teorias físicas, químicas, inventando novos remédios, novas máquinas, novas tecnologias. Essas mudanças não causam um impacto significativo na ordem, na estrutura do sistema social; tal impacto provém justamente das ciências humanas.
Estudei também em universidade pública – não a USP, mas também em minha universidade a PM não podia entrar senão por força maior ou com autorização expressa da reitoria. No meu caso, havia uma certa violência no campus, mas em muito menor escala do que na USP Butantã. Mesmo assim, a reitoria sempre usou da violência e de acidentes para justificar a retirada de coisas dos estudantes que iam contra a postura moralista dos reitores, prefeitos e cidadãos sãocarlenses, culminando, esse ano, em proibir um dos eventos mais tradicionais e importantes da vida universitária – o CORSO. Essa é uma tendência dos reitores atualmente: impor uma repressão moralista, usando eventos infelizes como justificativa. Se morreu um estudante no CORSO, proíbem o CORSO. Nenhum prefeito ou reitor ousaria, porém, proibir o carnaval, mesmo que morresse metade da cidade em um acidente com os carros alegóricos. Isso seria o mesmo que decretar sua morte política. Dessa forma, não me espantaria se o reitor da UFSCar convidasse a PM para o campus, se é que isso já não aconteceu e eu, já desligado da vida acadêmica, não tenha tomado conhecimento. E eu não gostaria nada disso, como não gostei de nenhuma das graduais retiradas de liberdades. Não ocupei a reitoria, porém. Como estudante de engenharia, era ocupado demais para isso. Para isso existem os estudantes de humanas
eles até fizeram os protestos deles, mas não conseguiram mudar nada.
Mas o fato é que a polícia em um campus é uma presença indesejável, destoante do ambiente liberal, pensante e questionador. Estudante e policial não falam a mesma língua. A língua do estudante é o do questionamento, do debate, enquanto a do policial é justamente o contrário – é a da violência, da imposição de autoridade. A polícia é sim útil a sociedade, justamente por que fala a mesma língua dos bandidos – a língua da violência. É natural que a presença da PM em um campus de universidade pública fosse dar merda.
Eu, pessoalmente, acho importante deixar as universidades públicas – mais importante até do que a questão da segurança – como ilhas nonde a ordem não se impõe, pois é dessas ilhas que saem as idéias que poderão um dia nos colocar em uma situação melhor. Sem essa força criativa, o mundo nunca vai mudar. O povo não tem força criativa, pelo contrário, é reacionário, como vimos; deixemos ao menos os estudantes dar sua contribuição à sociedade, a seu modo, em paz; mesmo por que, tentar impor ordem no campus equivale a matar a inteligência do país. PM no campus equivale a transformar a universidade pública num criadouro de profissionais incapazes de questionar – tal qual a universidade particular. Não é errado, assim, afirmar que a presença da PM no campus é um passo em direção à mercantilização do ensino público, acabando com uma das poucas e últimas coisas públicas que ainda funcionam nesse país.
Muitos estudantes da USP, por outro lado, desejam a PM por lá, já que a falta de segurança chegou a um nível tal que se sentem dispostos a sacrificar liberdade pela ordem. Esses, ao menos apresentam um argumento sólido, ao contrário do povão nos comentários do Yahoo, Terra e outros portais da vida sobre as notícias da USP, que abusam de falácias, generalizações sem base, como estudante é tudo maconheiro, que eles não querem a polícia lá para poder fumar maconha, que são os estudantes que geram a violência da sociedade por que fumam maconha – como diria o Capitão Nascimento, ignorando por completo o fato de que tal violência só existe devido à repressão policial – etc. Claro, antes de poder estudar e criar alguma coisa, um estudante precisa ter segurança. O que eu questiono é, será que convidar a PM é a maneira certa de fazer isso, e será que o que se abre mão ao abrir o campus para a PM compensa a segurança dada?
É, portanto, preciso pensar de maneira mais abrangente, fugir ao simplismo do “preto no branco” e analisar a situação com mais perspicácia antes de formar uma opinião sobre os estudantes e a universidade pública, por que não se trata de uma mera questão de baderna de estudantes por causa da prisão de alguns deles pela PM. O que está sendo questionado é algo muito mais profundo do que isso.

