Do Declínio do Gênero Masculino
Foi apenas recentemente que a mulher assumiu, em escala global, um posicionamento não inferior, não subjugado ou coadjuvante em relação ao homem. A atual realidade eleva a mulher e a faz o sexo principal, mais importante na sociedade, e com tendência a ficar cada vez mais poderosa em relação ao homem. Como foi possível a ocorrência de tal fenômeno – ou como o sexo forte assistiu, passivo e impotente, para usar as palavras que mais teme – à ascenção do sexo frágil e ao próprio declínio?
Pode-se identificar diversos fatores, ao longo da história, com alguma relação de causa em relação ao novo poder feminino. Se pensarmos nos pilares que sustentavam o antigo poder masculino, podería-se enumerar: A sensualidade masculina, a força masculina e a inteligência* masculina.
A sensualidade masculina era um dos sustentáculos do poder masculino, ao menos na civilização ocidental clássica. Qualquer um que estude a Grécia ou a Roma antiga perceberá que a sensualidade masculina era apreciada universalmente – tanto pelas mulheres quanto pelos próprios homens, como demonstra a estética que sobreviveu ao tempo, como as estátuas realçando os corpos e traços masculinos, a plena aceitabilidade das relações homossexuais que em momento algum era associada com fraqueza ou afeminização, pelo contrário, era vista como sinal de virilidade**. Tão natural era isso culturalmente, que não era incomum na época um homem ter, além da esposa que servia apenas para reprodução e para as tarefas domésticas, seus amantes homens, normalmente jovens adolescentes (I).
Quando o monoteísmo oriental baniu tudo aquilo da cultura clássica que contrariava seus dogmas, acabou o sustentáculo da sensualidade masculina. A mulher, que antes era indispensável apenas para uma coisa – a maternidade – agora era indispensável também para a sensualidade. Concentrou-se na fêmea toda a sensualidade humana, à medida que o homossexualismo passou a ser considerado inaceitável aberração para os medievais. Também o tabu do prazer feminino, visto como pecaminoso na mentalidade medieval, suprimiu totalmente da humanidade – ao menos do eixo Europa – Oriente Médio – a sensualidade masculina, até mesmo do ponto de vista das mulheres, censuradas pela religião da mera idéia de sentir prazer, impedida assim de apreciar a sensualidade em qualquer forma. A sensualidade feminina, por outro lado, não se enfraqueceu nessa revolução cultural. O prazer não foi transformado em tabu para os homens. Pelo contrário, ter muitas mulheres, apesar de oficialmente errado na cultura ocidental (e embora aceito na muçulmana), continuou a ser associado a nível popular com poder e virilidade e isso fortaleceu a sensualidade feminina ainda mais. Por mais machista que se possa considerar, no mundo de hoje, as religiões monoteístas tradicionais – a começar pelo judaísmo, depois pelo cristianismo e por fim o islamismo – foram responsáveis por dar um enorme poder à mulher. O poder da sensualidade.
O homem medieval, desprovido de sensualidade, manteve ainda a força como sustentáculo de seu poder. O mundo medieval era um mundo em que a força física era indispensável – como sempre fora, até então -, força essa que apenas os homens dispunham, tornando as mulheres totalmente dependentes do homem. Naquele mundo as mulheres, sem os homens, não conseguiriam sequer se alimentar***. Não seriam capazes de arar as terras, de domesticar os animais, de caçar, de construir castelos, de forjar espadas e armaduras, de trajar e manejar aqueles apetrechos bélicos medievais que eram pesadíssimos, de manejar com perícia um arco-e-flecha****, etc.
Desde os primórdios da humanidade até muito recentemente, a força garantia ao masculino a supremacia perante o feminino, à medida que esse dependia daquele para a sobrevivência em um mundo no qual a força era fator decisivo, tanto para conseguir o que comer quanto para se defender de inimigos naturais e inimigos humanos. É extremamente recente a possibilidade de ingresso das mulheres nas forças armadas, e ainda assim limitada – fator esse que, aos poucos, está mudando. Encontramo-nos em uma fase de transição, mas ainda onde o quesito força é importante, também mais importante é o homem do que a mulher. Sobra, assim, de forma residual a força como um diferencial para o masculino, mas somente em alguns redutos. Em um exército beligerente da segunda guerra mundial, por exemplo, ainda era impensável a presença de mulheres entre os envolvidos diretamente no combate, e isso não por preconceito, mas por mera questão de eficiência; os exércitos adorariam poder contar com mais manpower para engrossar suas fileiras, mas um exército com mulheres seria menos eficiente, mais frágil no combate. Poder-se-ia imaginar uma mulher ordinária percorrendo grandes distâncias nas mais adversas condições – desde o severo inverno russo até o escaldante sol do deserto do Saara, manejando fuzis ainda não tão desenvolvidos e fáceis de usar, morteiros pesados, tanques de guerra, aviões de dirigibilidade extremamente complicada e manches pesados, e muitas outras dificuldades? Seria ela não mais do que um estorvo para os colegas e desperdício de recursos?
A força, entretanto, hoje em dia já não é mais primordial – e quem retirou esse segundo e talvez mais característico pilar de poder masculino foi a tecnologia. À medida que trabalhar, produzir, manejar armas ficava cada vez mais fácil e leve, devido ao avanço tecnológico, a força foi ficando cada vez menos necessária, possibilitando à mulher ocupar cada vez mais nichos tipicamente masculinos e a depender cada vez menos do homem para seu próprio sustento e sustento da prole. No mundo de hoje, não precisa mais ter força para ser produtivo e conseguir o próprio sustento, tudo é macio e fácil de operar, o computador quase não exige esforço físico e obter alimento hoje limita-se a deslocar-se a um supermercado e percorrer os corredores, colocando no carrinho aquilo que o dinheiro do salário pode pagar. As máquinas fazem todo o trabalho pesado, todo o trabalho que exige força e resistência – desde a agricultura até a mais pesada das indústrias. O homem, embora não tenha perdido sua força física, vive em um mundo diferente, em que sua força não mais é essencial.
Mas, mesmo sem o pilar da sensualidade e com o pilar da força morrendo aos poucos após a revolução industrial, o domínio masculino ainda se manteve forte na sociedade, graças ao raciocínio lógico superior – que, para fins de simplificar, chamo simplesmente de inteligência (embora isso possa obscurecer o fato de que a mulher foi agraciada pela natureza com outros tipos de inteligência nos quais é superior ao homem). A mesma tecnologia que tornou obsoleto o poder da força masculina, foi quase que, senão totalmente desenvolvida pelo gênero masculino. Desde a antiga filosofia grega (da qual eu, pelo menos, conheço apenas homens: Sócrates, Platão, Tales, etc.), que sobreviveu de certa forma à idade média graças aos monges cristãos como Santo Agostinho (também não me ocorre nenhuma figura proeminente feminina) e aos notáveis mestres medievais árabes, como Ibn Sina, Al-Khwarizm, Al-Qasim, Al-Jabr, apenas para mencionar alguns (nenhuma mulher também me vem a mente), e depois a efervescência filosófico-científica disparada pelo renascimento, conduzido também por homens como Copérnico, Galileu, Da Vinci (um nome feminino? Aguardo sugestões…) e o notável progresso científico-filosófico que se seguiu ao renascimento, com nomes como Kepler, Voltaire, Leeuwenhoek, Newton, Laplace, Pascal, Lavoisier, Adam Smith, John Locke, etc. Mulheres? Talvez possamos mencionar Madame de Staël, mas essa não é tão famosa assim, e talvez só tenha sido reconhecida por ser de família rica. Enfim, ainda no início do século XX a ciência era reduto masculino. Einstein, Oppenheimer, Schrödinger, Planck, Heisenberg, Freud, Pavlov, Zuse, Turing, Von Newman, etc.
Foi também a tecnologia que moldou o mundo de tal forma que a inteligência masculina deixou de ser fundamental, e deu até um certo foco ou preferência à inteligência feminina. Do mesmo jeito que as coisas eram mais pesadas antigamente, também eram mais difíceis de manejar. Não havia carros automáticos, não havia computadores para fazer cálculos, a produção exigia uma visão geral de todo processo – coisa que a revolução industrial tirou de foco, passando a valorizar o trabalho simples e repetitivo, favorecendo fortemente o gênero feminino. No universo empresarial de hoje, a vantagem do homem é apenas residual e a tendência é que as mulheres superem os homens nas funções administrativas, pois elas têm melhor comunicação, inteligência emocional. As mulheres são melhores psicólogas, melhores enfermeiras e, quanto mais a medicina se divide em especialidades exigindo menos visão geral, mais também as mulheres vão sendo melhores médicas; as mulheres, mais detalhistas, são superiores em trabalhos de testes e controle de qualidade; mais organizadas, são melhores secretárias, zeladoras, e uma ampla gama de funções em que a organização é uma vantagem; a ciência já pode ser também praticada pelas mulheres, na guerra também alguns papéis como intendência, por exemplo, e aos poucos papeis mais envolvidos diretamente no combate podem já ser executados, às vezes com vantagens, pelas mulheres, e eu poderia me extender em exemplos indefinidamente, para mostrar que o mundo de hoje é um mundo em que as qualidades das mulheres – como inteligência emocional, comunicação, simpatia, sensualidade, etc – são mais importantes que as qualidades do homem.
Assim, de sexo frágil, a mulher se viu, em meados do século XX, o sexo forte, mais essencial que o gênero masculino, pela primeira vez na história da humanidade. O que se mantinha de poder do homem era meramente residual, simbólico, nominal. Já não tinha mais seus pilares de sustentação, e era natural que um movimento feminista surgisse reclamando o reconhecimento daquilo que se tornara realidade. O gênero masculino havia construido um mundo para o qual o gênero oposto era melhor adaptado.
A mulher, no mundo de hoje, é que tem pilares de sustentação para seu poder. Ela tem o poder da sensualidade e o poder da inteligência (agora refiro-me à emocional). A ciência deu à mulher a pílula anticoncepcional – e com isso a maternidade, antes uma obrigação, ganhou a possibilidade de ser controlada, passando a ser o que considero hoje o terceiro pilar de dominação feminino. A religião perdeu muito de seu poder de influência na vida das pessoas e com isso as mulheres já também não temem usar de métodos abortivos, como outrora. O homem, se ainda é, em partes, necessário para a reprodução, é também já descartável. Pouco conta sua vontade, na questão da reprodução. Tanto o negar quanto o exercer a maternidade pode e é usado amplamente por muitas mulheres hoje em dia para obter vantagens dos homens*****. E, os novos métodos de reprodução apontam até ao efetivo descarte do masculino como parte necessária da reprodução: é possível gerar um humano em laboratório sem espermatozóides, porém é inimaginável, inconcebível, sem óvulos. Um casal de lésbicas pode, teoricamente, ter filhas (somente fêmeas) biológicas através da fertilização in vitro, apenas com seus próprios gametas. Um casal de gays também pode, em teoria, ter filhos ou filhas, mas depende de um óvulo e um útero, coisa que não têm. Embora essas conjecturas possam parecer surreais ou chocar alguém mais conservador a primeira vista, é nessa direção que aponta a bússola da história, e o momento de transição que vivemos é exatamente esse: a transição da dominação masculina para a dominação feminina. Embora se pregue que estamos caminhando em direção à igualdade, tal prospecto parece-me errôneo.
Para concluir: nada mais aceitável, em minha opinião, que homem e mulher estejam em igualdade em relação ao respeito que a ambos se deve. Discriminação não é aceitável, considerar o gênero em vez da competência é ridículo. Não concordo, porém, que homens e mulheres sejam iguais biologicamente. Gostaria que vivessem em bons termos; mesmo porque, caso contrário, quem perde é a humanidade como um todo.
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* Uso inteligência, no texto, de maneira que pode causar confusão, mas que tomei a liberdade por me permitir uma melhor fluência e entonação da qualidade que buscava evidenciar. Na verdade, quando digo que o homem é inteligente, quero dizer que o homem é mais inteligente em sua própria inteligência – predominantemente racional e lógica. Da mesma forma, quando digo que a mulher é inteligente, ela é inteligente também em sua própria inteligência – predominantemente emocional e comunicativa. Sobre esse assunto, interessante consultar (II).
** A mentalidade do homem contemporâneo, forjada desde o fim da antiguidade clássica com a queda de Roma e ascenção até a total supremacia das religiões monoteístas, ainda que uma nova onda de tolerância ao homossexualismo tenha surgido recentemente, dando origem a uma nova tendência cultural, e importante frisar, de um modo geral – com todo respeito aos homossexuais que divergem dessa corrente maioritária – o heterossexualismo ainda é indissociável da virilidade. Para exemplificar, eu, tendo sido criado totalmente imerso em nossa cultura que muito bem conhecemos, sou heterossexual. Não consigo ver sensualidade em outros homens, chegando a ser – friso novamente, apenas pessoalmente, com todo respeito a quem pense de outra forma – repugnante, asquerosa, nojenta a idéia de amor com outro do mesmo sexo. Uma questão que surge daqui é: será que eu, ou qualquer outro homem heterossexual contemporâneo, teria essa mentalidade se tivesse crescido na Grécia antiga? A análise dessa questão não é trivial, porém foge ao escopo desse artigo, ficando para se pensar.
*** Com algumas raras e notáveis exceções. Reitero: exceções. Como Joana D’Arc, por exemplo. Deve-se mencionar, no entanto, que ela tinha um exército de HOMENS atrás de si. Com um exército de mulheres, tanto ela quanto o hipotético exército feminino francês teria sido eliminado fácil e rapidamente.
**** Os homens têm, naturalmente, uma ligeira vantagem visual, ao menos no que concerne ao manejo de arcos-e-flechas: a capacidade de focar em um objeto mais facilmente e de enxergar melhor a distância. (A mulher, por outro lado, tem um ângulo de visão ou visão periférica mais ampla, distingue detalhes mais facilmente e consegue prestar atenção em várias coisas ao mesmo tempo). Sobre isso, encontrei um interessante artigo de blog (III).
***** Tal uso da maternidade é, para mim, extremamente imoral (embora não ilegal e embora, em nosso mundo, já esteja banalizado a ponto de ser considerado normal, não despertando indignação). Nunca é demais salientar que não estou sequer generalizando; estou apenas constatando que tal fator de manipulação é utilizado, sem inferir, de maneira alguma, que todas ou sequer a maioria das mulheres assim procedem. Além disso, ainda que nenhuma mulher utilize, tal fator tem o potencial de ser utilizado a qualquer momento por qualquer mulher.
I) Hein van Dolen – Greek homosexuality (http://www.livius.org/ho-hz/homosexuality/homosexuality.html)
II) Prof. Dr. Renato M.E. Sabbatini – Existem diferenças cerebrais entre homens e mulheres? (http://www.cerebromente.org.br/n11/mente/eisntein/cerebro-homens-p.html)
III) Camila Diesel – Ciência explica diferenças entre homens e mulheres (http://camiladiesel.wordpress.com/2010/01/13/ciencia-explica-diferencas-entre-homens-e-mulheres/) Procurar subtítulo “Campos visuais diferentes”.
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