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Da mediocridade áurea

Não vivemos em um mundo no qual a mediocridade é apreciada. Tal palavra é até mesmo considerada sinônimo de ruindade. Em nosso tempo, louva-se exatamente o oposto: a intensidade. Admira-se atitudes e comportamentos extremos, radicais. O equilíbrio, o meio termo, a razoabilidade não são apreciados. Em seu lugar, pratica-se e elogia-se o abuso, o exagero, o desequilíbrio.

Olhamos para nosso mundo e vemos numerosos exemplos disso. O sujeito determina que ele quer saúde. Então ele se submete a uma série de restrições, declara guerra à alimentação prejudicial à saúde (sem considerar que prejudicial é relativo), obriga-se a uma agenda rigorosa de prática de esportes, gastando horas e dinheiro com academia, exames médicos, esportes, etc. Claro, a pessoa ganha uma tendência a ser mais saudável, viver alguns anos a mais, porém, quando se soma tudo o que ele ganhou, será que compensa tudo o que ele teve de abrir mão?

Outro decide viver a vida com intensidade, ainda que isso a encurte. Geralmente cantores e artistas caem nessa armadilha. Adquirem toda sorte de vícios. Comportam-se de maneira exageradamente descontrolada, praticam a promiscuidade irrestrita, envolvem-se em escândalos, etc. Indiscutivelmente, conseguiram a vida intensa que desejaram. Mas ai vemos sujeitos como Cazuza, Amy Winehouse, Kurt Kobain, etc, acabarem do jeito que acabaram, e novamente vem a pergunta: será que o que abriram mão compensou o que ganharam com o exagero?

Uma outra figura conhecida é o “workaholic”. O sujeito encuca que quer ganhar dinheiro, subir na vida, vencer, ter sucesso, incorporando à sua própria vida tais clichês do universo empresarial. Um daqueles empresários que o chefe nem pediu, mas lá está ele, às 21:30, trabalhando sem nenhum sinal de cansaço, devido ao constante consumo de cafeína, desde as 8:00. Não lhe ocorreu que passou o dia todo, o sol nasceu e se pôs e ele sequer viu o dia, não lhe resta mais tempo senão para chegar em casa, tomar banho, comer alguma coisa e dormir, e ainda não viu sua família, não pensou, não leu, não fez alguma atividade para si próprio, não fez nada, sua vida passa e ele nem sequer está a par disso? É muito provável que um sujeito assim tenha uma tendência a ganhar mais dinheiro. Mas de que adianta o sucesso profissional, o dinheiro, se o sujeito, depois de vinte anos nessa vida, sequer se lembra como se aproveita a vida? Não deixa de ser pertinente mais uma vez a pergunta: compensou?

A resposta, em todos esses casos, é um simples e categórico não! Tudo o que é exagerado, obsessivo, vicioso, desequilibrado, nunca compensa, pois o custo é sempre maior que o benefício! E é exatamente aqui que reside a dificuldade de compreensão das pessoas de nosso tempo. Sem a inteligência para perceber a relatividade das coisas, as pessoas assumem algo como sendo bom, independentemente da quantidade. Não se considera que a diferença entre remédio e veneno não é a substância em si, e sim a dose. Passa-se desapercebido que o mesmo calmante que ajuda a dormir, no abuso torna-se o maior inimigo do sono. A mesma bebida que ajuda a descontrair e relaxar, e tem até propriedades benéficas ao organismo, no abuso torna-se uma das piores desgraças que uma pessoa pode causar a si própria e à sua família, o alcoolismo. Até mesmo o alimento, que é necessário para nossa sobrevivência, no abuso transforma-se em agressor de nossa saúde e consequentemente de nosso próprio bem-estar. Não há nenhum problema em buscar o benefício, o prazer, a felicidade, o sucesso, desde que não se sacrifique mais do que se ganhe nesse processo!

Não é uma idéia que se consegue transmitir facilmente às pessoas de nosso tempo. Só se entende as coisas de maneira maniqueísta. Voltemos ao exemplo do álcool. Pergunta-se a duas pessoas: álcool é bom ou é ruim? Uma delas afirma categoricamente que é ruim. E, assim entendendo, abstém-se completamente do álcool. Não ingere uma única gota sequer de bebida. A outra afirma que é bom, e bebe sempre, com motivo, sem motivo, em casa, etc. Ela bebe por que entende que o álcool é uma coisa boa, e o que é bom, quanto mais melhor.

Mas ambas estão erradas. O álcool, como todas as coisas, não é bom e nem ruim. Ele pode vir a ser bom, como pode vir a ser ruim, dependendo de como é usado. Ser radicalmente abstêmio não é ideal (embora seja muito preferível a ser alcoólatra), pois deixa-se de aproveitar uma coisa boa da vida, que é o álcool. Mas tornar-se alcoólatra é de uma burrice assombrosa, aquilo que poderia ser bom transforma-se em um inferno. Não fica óbvio, que a melhor opção é o meio-termo? Não ser abstêmio, nem alcoólatra?

Nos dias de hoje, as pessoas não parecem ver a opção do meio-termo. Ou uma coisa é boa, ou é ruim; se boa, quanto mais melhor, se ruim, foge-se como se foge do inferno. É assim que nossas raízes greco-romanas vêm sendo corrompidas pelo pensamento maniqueísta e supersticioso medio-oriental há milênios. O primeiro lapso de entendimento da consciência coletiva atual reside ai: não há coisa absolutamente boa ou coisa absolutamente ruim. Em outras palavras, não é possível atribuir, de maneira absoluta, essas características. As coisas somente adquirem a característica de boas ou ruins, em função do contexto, da pessoa, da intensidade, etc.

Por isso, quem deseja aproveitar a vida da melhor maneira possível, deve evitar os extremos. Abster-se ortodoxamente das coisas não é desejável, por que restringe o aproveitamento dos prazeres; mas exagerar nas coisas também não, pelo simples fato de que a natureza de nossos corpos e mentes é tal, que qualquer exagero torna-se prejudicial. Isso bem sabiam os romanos, quando diziam: “Aurea mediocritas”.

06/10/2011 - Publicado por | Filosofia

2 Comentários »

  1. Mais uma vez me surpreeendo com suas divagações a respeito de coisas que eu pensava que não te diziam respeito, muito inteligente e que me faz continuar acreditando que vc é mais escritor e filósofo do engenheiro, vc tem uma boa visão da vida porém ainda precisa aprimorar e buscar conhecimentos a respeito de coisas mais transcendentais, vejo vc muito prático, matemático e razoavél porém pouco crédulo no principal acontecimento de nossa existência, o fato de sermos filhos de Deus e de que só poderemos ser salvos por Cristo. ( te peço que pense nisso). Pai.

    Comentário por Everaldo Mattiello | 12/10/2011 | Responder

    • “( te peço que pense nisso)”. Eu penso. Porém, nesse blog não será discutido religião. Não acho uma boa idéia escrever publicamente sobre religião. Se escrevo sobre uma determinada religião, ofendo quem crê nas demais. Se escrevo sobre as demais, ofendo quem crê na uma. Assim, o blog é puramente secular e não escreverei ou discutirei sobre fé. Mesmo sobre política eu reluto bastante em escrever, quanto mais tomar um partido, pelo mesmo motivo. Essas coisas discutimos, com muito prazer, em nossas conversas, como naquelas caminhadas que fazíamos no Mantiqueira… apesar da preguiça inicial, sempre valia a pena. Era sempre um bom papo…

      Comentário por leumattiello | 17/10/2011 | Responder


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