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25.09.2011 – Oktoberfest em Munique

O'zapft is!

Normalmente, aquele trem era silencioso e com muitos lugares vagos. Não eram muitas pessoas que, tão cedo, as 09h03 da manhã de um domingo, precisavam viajar. O trem regional que faz o caminho Nürnberg-München, no entanto, não tinha a mínima de sua habitual tranquilidade naquele dia. Totalmente lotado, com muita gente de pé, em clima de festa, e boa parte das pessoas com trajes do século XIX.

Assim seguíamos com direção a Munique, e a cada parada mais camponeses e camponesas (refiro-me às pessoas com trajes típicos) entravam no trem. Por uma maravilhosa felicidade, haviam mais camponesas do que camponeses no trem, de modo que a lotação, ao fim das contas, não estava assim tão insuportável. As camponesas eram bonitas mas, devo salientar, minha esposa deixa todas elas no chinelo. ;)

Chegando em Munique, não foi difícil encontrar o recinto onde ocorria o famigerado evento. Segui as camponesas as pessoas com trajes típicos. E o layout era bem parecido com a Volksfest, de Nuremberg: um parque de diversões, milhares de barraquinhas vendendo lembrancinhas e lanches, e alguns barracões onde rolavam os litrões de cerveja e as bandinhas tocando músicas típicas.

Devo admitir que, com os óculos escuros e a barba mau-feita que estava e uma mochila nas costas, e a cara de turco (sim, na cabeça dos alemães eu tenho cara de turco, já me disseram isso algumas vezes), eu estava parecendo um terrorista muçulmano. Tanto que eu nem me espantei, quando a polícia, na entrada do evento, pediu para ver o conteudo de minha mochila. Porém, a abordagem policial aqui não tem nada a ver com a abordagem no Brasil. E não houve revista. Aqui, os policiais pedem para ver a mochila, chamam você de senhor, tratam-te com toda educação e respeito. E, além do mais explicam o perigo do terrorismo, e agradecem e desejam uma boa festa. Muito diferente da polícia brasileira, que já vai revistando a torto e a direito sem solicitar, apenas exigindo e ordenando, enfim, sem o mínimo de respeito, como se o cidadão estivesse a serviço deles e não o contrário, isso quando não usam de agressão física não-provocada, desnecessária e desproporcional, que lamentavelmente quase nunca é punida e ninguém mais se espanta com isso. Depois, ainda se pergunta por que as pessoas não gostam da polícia no Brasil. Mas, com a abordagem da polícia daqui me senti muito respeitado, tanto que eu cooperei sem qualquer problema, mesmo porque, se algum terrorista de verdade estivesse passando por ali com uma mochila cheia de bombas, não seria muito agradável que a polícia não o tivesse impedido de entrar.

Caminhei, explorei o recinto, interessei-me por um chapéu, e na hora do almoço adentrei um barracão. Apesar do barracão ser gigantesco, muito andei mas não consegui encontrar um lugar livre sequer. Então procurei outro barracão, e nesse, com muito custo, consegui ficar com o lugar de um grupo que acabara de sair. Mal sentei, e três caras vieram também, perguntando se tinha lugar na mesa. Ora, se alguém faz questão de sossego, desaperto e tranquilidade, não deveria ir à Oktoberfest em primeiro lugar. Logo após os três caras, vieram outros dois e um casal. Assim, quase que instantaneamente, a mesa que acabara de esvaziar, e ainda com os copos e pratos vazios dos que saíram, já estava novamente completa.

As belas "camponesas" da oktoberfest em seus trajes típicos. (Nunca é demais reiterar que minha mulher é muitoooo mais bonita que todas elas juntas.)

E, de tempos em tempos, tocava a banda “Ein Prosit, Ein Prosit, der Gemütlichkeit!”, conclamando as pessoas a fazerem um brinde ao conforto! E todo mundo brindava. De tempos em tempos, algum maluco ficava de pé na cadeira e tentava virar o litrão (refiro-me à caneca de chopp, que contém, para ser preciso, 0,9 litro – um pouco a menos que o padrão de Nuremberg, que é exatamente 1 litro) de uma só vez. Quando isso acontecia, todas as atenções se voltavam ao “desafiante”, tal qual um jogador de futebol prestes a fazer uma cobrança de pênalti. E, quando o cara não consegue, é vaiado com veemência, e não sem justiça. Afinal, quis dar uma de bom sem ser bom o suficiente. Nenhum cara conseguiu, mas uma menina, baixinha, que ninguém botaria fé, conseguiu… duas vezes! Vergonhoso isso para nosso gênero, mas fomos humilhados por uma baixinha… e, por seus méritos, recebeu o reconhecimento de todos das mesas próximas, com animadíssimos aplausos.

Pois bem, previamente mencionei as pessoas que estavam na mesma mesa que eu. Os três primeiros eram húngaros. Somente um deles fala alemão (nenhum deles falava inglês). Os outros dois, só húngaro. Esse que falava alemão era bastante conversador, e eu não me canso de me felicitar por ter finalmente aprendido a falar alemão. Não que eu fale bem, isso é uma outra história. De cada 10 frases que eu falo, 11 tem algum erro, seja de concordância, preposição, declinação, gênero, etc. Mas, a mera capacidade de entender e me fazer entender faz muita diferença por aqui… obviamente, pois trata-se da língua do país. Vejo quanto eu perdi, em minha estadia em Lüneburg, por não conseguir me comunicar direito. Teria sido muito mais proveitoso aquele ano, com toda certeza.

Pois bem, além dos húngaros, tinham dois americanos. Um deles falava só inglês, o outro falava inglês e espanhol e, ao descobrir que eu era brasileiro, começou a falar espanhol. Não sei por que raios os estrangeiros pensam que falamos espanhol… bem, o húngaro também não escondeu sua ignorância quando perguntou: “qual idioma se fala no Brasil? Espanhol?” Ok, mas os caras eram gente boa, então pacientemente expliquei-lhes que no Brasil se fala português. Mas tive que explicar duas vezes: o húngaro não falava inglês, e o americano não falava alemão.

Apesar disso, o húngaro e o americano também tentavam se comunicar, sem sucesso. Eu apenas rachava o bico da comédia que se passava ali na minha frente (sem, é claro, evidenciar para não ofender os caras…). O casal era alemão, mas falavam também inglês. Eles nos explicaram que a planta que enfeitava os pilares do barracão era o lúpulo. Não é de hoje que tenho vontade de ter um sítio e plantar lúpulo. As vezes penso que eu deveria ser agricultor, mas me disperso.

Terminei minha cerveja por volta de 2h da tarde, e naquele dia ficaria só na primeira mesmo. Ademais, a cerveja da Oktoberfest é uma cerveja especial, preparada especialmente para o evento, e que contém uma porcentagem alcoólica maior. Não queria voltar tarde, e dali andei um pouquinho para o recinto e logo ja estava de volta à estação, aguardando o trem das 15h06. Que, estava tão lotado quanto o trem da manhã, seguindo a mais universal das determinações da física: tudo o que vai, volta.

26/09/2011 Publicado por | Viagens | Deixe um comentário

   

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