Nihil obstat

Germania, Corinthians, et cetera

14.05.09 – Considerações I: Aprender alemão na Alemanha

Estou num estado de contradição. Quero escrever e, ao mesmo tempo, não quero. Sei que os posts mais apreciados são os que eu conto sobre as viagens que faço. Os que apenas filosofo, que não contêm ação, não despertam muito o interesse. Mas, esses são os que eu mais aprecio escrever. E esse é mais um desses. Enquanto batalho para encontrar um tema, sinta-se a vontade para desistir da leitura, se quiser.

Pois bem. O fato é que está chegando perto da hora de voltar. Faltam dois meses e dois dias. Já dá pra eu ir começando a fazer as considerações finais… Uma coisa que eu aprendi aqui, é que a Alemanha é um péssimo lugar para se aprender alemão. Não venha para cá, se esse for seu objetivo: aprenda ai mesmo, só depois que já estiver quase fluente, venha para aperfeiçoar o idioma. Por outro lado, se seu objetivo for aprender inglês, pode ser uma boa. A maioria dos seus amigos serão estrangeiros (em relação à Alemanha né, dãããã) que não falam alemão, ou que falam mas, por que muita gente no grupo não fala, sempre acaba sendo o inglês a língua falada nesses eventos internacionais. Ou espanhol! Sim, aqui você vai ter mais oportunidades para aprender e praticar o idioma de Cervantes, do que o idioma de Goethe. Porque em qualquer lugar do mundo que você for, haverão sempre muitos falantes de espanhol, e eles sempre preferem, obviamente, falar espanhol. Português também é uma boa, brasileiro tb não é coisa rara de se encontrar e as vezes até se acha algum português ou angolano (não, timorense ou macauense não será assim tão fácil). Mas se você está lendo isso, provavelmente não precisa tomar nenhuma atitude pra melhora-lo.

O que eu quero dizer é que você não será obrigado a falar alemão em nenhum momento. Nem pelos amigos nas festas, nem pelos colegas no trabalho. Você optará por não ter televisão, e o imposto que eles cobram pela televisão será o menor dos motivos. Você tentará ouvir rádio, e perceberá que para cada 10 músicas em inglês eles tocam 3 em italiano, 2 em espanhol e uma em alemão. Você criará sua playlist no youtube com músicas em alemão, que não vai ajudar em absolutamente nada, e como você é eclético, logo você vai se cansar dela e vai procurar músicas em outros idiomas, e ai você vai encontrar músicas em italiano, vai conseguir entender mais ou menos a música e vai acabar aprendendo mais italiano do que alemão nessa jogada. Você tentará ouvir rádio de notícias, ficará craque em entender as notícias, mas vai perceber que não adianta nada porquê a linguagem usada nas notícias não vai te ajudar a entender a linguagem popular, que é a mais difícil. E nem a linguagem formal, porquê a linguagem jornalística é diferente de ambas. Você não vai sair por ai falando de política, de guerra no Afeganistão… você não vai chegar para uma pessoa e dizer, “Ei fulano, o Pontífice está realizando nesse momento uma visita de estado a Israel”, no máximo ouvir esse tipo de rádio vai enriquecer seu vocabulário com alguns termos chics para a gripe do porco…

Você pode sim, aprender alemão aqui, desde que não precise trabalhar. Se você vier para um curso de alemão, especificamente. Mas isso você pode fazer ai mesmo, não precisa vir pra cá. E se você acha que, vindo pra cá por outro motivo, o aprendizado do idioma virá naturalmente como um efeito colateral, volte dois parágrafos. Bom, quando você tentar iniciar uma conversa em alemão e o sujeito responder em inglês (esfregando na sua cara, com esse simples gesto, que seu alemão é tão horrível que você não deveria nem estar tentando), você saberá do que eu estou falando. E ai você anda com os hispânicos e entende boa parte do que eles estão falando sem nunca ter estudado espanhol e se questiona, onde eu estava com a cabeça quando resolvi aprender alemão?

Por algum tempo eu me senti mal com essa história. O fato é que você não se sente bem quando percebe que é incapaz de fazer alguma coisa. Porquê, apesar do tempo que eu passei aqui, ainda não consigo conversar em alemão. E, do jeito que é minha vida aqui, mesmo daqui 5 anos estaria a mesma coisa. Mas, saber que não é o único burro, serve como consolo. Todos os outros estagiários que vieram pra essa empresa, tinham algum conhecimento prévio de alemão. Nenhum deles saiu daqui falando o idioma. Diego, do Werder Bremen, já está aqui a 3 anos. Não fala. Poderia procurar e citar mais exemplos. Poderia até citar alguns exemplos de sucesso. Mas não vou citar os de sucesso, porque eu quero me sentir menos burro, oras! Sim, se eu tivesse um pouco mais de boa vontade pra estudar sozinho, fazer exercícios do livro (que eu nem toquei, desde que cheguei) e da internet depois do trabalho (isto é, na hora pior hora possível pois você já está cansado) talvez eu tivesse aprendido alguma coisa. Mas, metade da minha estadia aqui eu não tinha internet. E na outra metade, eu passei a ter internet em casa, e foi justamente esse o problema… E além disso, se eu estudasse, não teria tempo pra coisas úteis como jogar fut, pra ir pras festas, pra perder tempo na internet…

Pois essa é a minha consideração sobre aprender alemão na Alemanha. Nesse ponto, a experiência não foi boa. Farei outras considerações, algumas sobre experiências positivas, outras sobre experiências negativas.

14/05/2009 - Publicado por leumattiello | Uncategorized | | 9 Comentários

9 Comentários »

  1. E ai cara !!! Já estou percebendo que vc esta com saudades !!! Do Brasil, e da Alemanha….se liga na frase.
    “O valor das coisas não está no tempo em que elas duram,
    mas na intensidade com que acontecem.
    Por isso existem momentos inesquecíveis,
    coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”.
    (Fernando Pessoa)

    Abraço
    Gui

    Comentário por Agnaldo | 16/05/2009 | Responder

    • Ótimo poema, Gui! Valeu!
      E é exatamente isso, estou com saudade do Brasil, mas tb já estou antecipando a saudade da Alemanha…

      Comentário por leumattiello | 18/05/2009 | Responder

  2. Pois é, Léu…
    Na verdade, não acho que o alemão seja tão difícil assim. Simplesmente, não é uma língua familiar.
    Nossas conexões cerebrais e linguísticas foram formadas desde a infância pelo esquema da linguagem latina. Então, para um latino, é muito mais difícil aprender línguas anglo-saxônicas ou asiáticas, por exemplo.
    Se você estivesse no Japão ou na China, não conseguiria falar nada, também. É outro esquema linguístico. É muito mais trabalhoso e demorado para aprender. Já o espanhol e o italiano são familiares. O francês também, mas nem tanto (eu diria que o francês é a menos latina das línguas).
    Quanto aos seus “posts filosóficos”, eu curto muito (basta ver o tamanho deste comentário…hahaha). Enfim, o blog é seu, você tem que escrever sobre o que você quiser, não sobre o que você acha que as pessoas vão gostar.
    Pra terminar: já que você escreveu sobre línguas, tem dois erros graves de português no seu texto, vamos ver se você descobre… mas ei, relaxa, não quero pegar no seu pé, não, é só uma maneira de aprender falando sobre o assunto, certo?
    No mais, “long live rock’n roll” e viva o Corinthians!!

    Dell

    Comentário por Dell | 16/05/2009 | Responder

    • Hmmm erro, que erro? Tá loco?

      Comentário por leumattiello | 18/05/2009 | Responder

  3. Oi Humber é o pai, vejo que no quesito alemão vc não está tirando um dez, porém tenho certeza que esta valendo a pena esta sua estádia ai na Alemanha, e que vc voltará com grande experiencia de vida, e isto servirá para sua futuras vitórias na vida.
    Um grande abraço do pai.

    Comentário por everaldomattiello | 16/05/2009 | Responder

    • Então, serão pano pra manga nas próximas (e serão várias) considerações finais.

      Comentário por leumattiello | 18/05/2009 | Responder

  4. Bah… Conteem e dispertam heheheh

    Edo, gramaticalmente alemão é mais parecido com latim, do que qualquer língua latina. Latim era extremamente complexo. Todas as línguas latinas modernas fizeram uma simplificação enorme do latim. Cortaram dezenas de preposições, eliminaram as declinações… coisa que não ocorreu no alemão. No alemão permaneceram essas complexidades, cuja origem tem parte o próprio latim.

    Chinês ou finlandês talvez não, mas o japonês simples (não o poético ou jornalístico) talvez teria aprendido. Ou russo. Ou não. Mas e quanto ao anglosaxônico inglês, que todo mundo, de qualquer base linguística, o aprende com facilidade? Quando se fala de alemão, o buraco é mais embaixo…

    Comentário por leumattiello | 18/05/2009 | Responder

  5. Léu, quase, tirou 5. Um erro é o “dispertam”, acertou. O “conteem” eu nem tinha percebido. Mas o mais grave é o “haverão” (… por que em qualquer lugar do mundo em que você for, haverão sempre muitos falantes de espanhol…). O verbo haver no sentido de existir é sempre impessoal, portanto, sempre na 3ª pessoa do singular, não importa se o complemento é singular ou plural – “HAVERÁ sempre muitos falantes de espanhol”.
    Mas deixa pra lá.
    Quanto ao inglês, nós somos praticamente educados em inglês, por isso a língua é familiar. Temos contato com o inglês desde a infância. Se fosse assim com o alemão, também teríamos facilidade. Eu acho.
    Mas, eu gostaria de saber por que o alemão é tão influenciado pelo latim, e não é considerado uma língua latina… você tem alguma explicação?
    Abraço,

    Dell

    Comentário por Dell | 19/05/2009 | Responder

    • Ah bem lembrado… Essa do haverão eu já soube um dia. Mas realmente não lembrava mais. Por isso que é bom pertencer a uma família culta! E, quanto a mim, preciso voltar pra escola… meu português já foi melhor…

      Mas, Wendell, insisto. Você precisaria de um esforço, digamos, 10 vezes maior pra aprender alemão do que inglês, mesmo que a importância e a popularidade global desses idiomas fossem invertidas.

      Inglês é comum na mídia mas, ninguém fala inglês se não estudar inglês. No máximo a pessoa fala “I love you” e coisas do tipo, mas não consegue conversar nesse idioma se não estuda-lo de alguma forma, autodidata ou não. E ai está a diferença: quando alguém se dispõe a aprender inglês, aprende com facilidade, rapidamente, tranquilamente. Tal simplicidade não ocorre com o alemão. Esse demanda tempo, dedicação, esforço, e não se chega à fluência sem investir muito nisso, e à perfeição não se chega nunca, nunca mesmo, exceto se você tiver um convívio prematuro (desde a infância) e estreito com o idioma. Quanto ao inglês, qualquer um pode chegar à perfeição, com um pouquinho de boa vontade.

      Comentário por leumattiello | 19/05/2009 | Responder


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