Ocupação da Reitoria na USP
Tenho lido notícias e comentários sobre o mencionado assunto na Internet. Alguns tão absurdos a ponto de “temos de parar de sustentar esses vagabundos da USP com nossos impostos”, e por ai vai. Antes de entrar no tema em si, é conveniente abordar a questão do comportamento da sociedade brasileira, a opinião popular, o pensamento do povão.
O Brasil é, culturalmente, um dos países mais conservadores e moralistas do mundo. Se tornamo-nos independentes, não foi pela vontade popular, que sempre foi indiferente, alheia e irrelevante à política, mesmo depois de estabelecida a democracia; tal fato histórico (declaração da independência) foi decorrente de tramas políticas da família real, ou seja, um movimento aristocrático, elitista. E, dessa forma, ao contrário de todo o resto da América, tornamo-nos independentes apenas para continuar sendo governados por uma monarquia. Todos os demais países americanos fundaram repúblicas. A nossa república foi fundada apenas 67 anos depois da independência. Não bastasse isso, continuamos por décadas no sistema escravista. Fomos um dos últimos países do mundo a abolir a escravidão. Isso apenas ilustra como somos culturalmente extremamente conservadores.
Não é de se estranhar que o principal valor nacional do Brasil é, e sempre foi, a ordem, em detrimento da liberdade. Isso está até explícito em nossa bandeira. Quanto ao progresso, tenho minhas dúvidas. Mas o fato é que o Brasileiro não é um povo disposto a sacrificar a ordem em troca de liberdade.
Conversando com cidadãos ordinários que viveram a época da ditadura, é notável que a maioria deles apóie a ditadura. Muitos deles gostariam de tê-la de volta, convictos de que isso eliminaria a criminalidade. Quem é contra a ditadura no Brasil? Certamente, não é o povo. São os estudantes, os artistas – obviamente que refiro-me a artistas questionadores e não às celebridades fúteis que se proliferam atualmente e, mais nos bastidores, a própria elite financeira, parte dela de ideologia liberal. Em outras palavras: a elite intelectual. O povão mesmo, não está nem ai. Quem lutou contra e derrubou a ditadura foi a elite intelectual.
E se houve um movimento popular considerável pelas “Diretas Já”, o povo foi levado a dele participar unicamente por políticos carismáticos. Não teria força ou interesse para organizar, ele próprio, tal movimento.
Nos últimos anos, assistimos a um crescimento vertiginoso dos evangélicos, radicalizando ainda mais a postura moralista da população. Se na época da ditadura era a igreja católica que acusava os socialistas de comedores de crianças, hoje são os evangélicos que assumem o papel de demonizar todos os movimentos modernizadores. Não há um projeto liberal que a bancada evangélica permita que seja aprovado. Assim, o povo vê com bons olhos repressões policiais violentas. A ação violenta e repressiva, na visão do povão, não chega a ser um problema, mas é visto como um combate ao problema da criminalidade: imagina-se que a polícia deveria ser até mais violenta, como se já não fosse uma das mais violentas do mundo, para poder combater melhor a criminalidade.
O moralismo pode ser útil para preservar a ordem. Em outras palavras, para negar ao povo novos direitos, para manter uma jornada de trabalho alta, para manter impostos altos, para manter o povo em um alto grau de servidão com relação ao governo, sem se revoltar. Se o próprio povo concorda e aprecia a servidão, estranho seria se vivêssemos em um país avançado socialmente. Ainda assim, existem as tais correntes modernizadoras; tais correntes estão, no entanto, restritas à elite intelectual. Mesmo assim, tais correntes têm força política, apesar da falta de apoio popular. Isso porque o povão, como dito anteriormente, é indiferente às idéias; se vota, se há uma democracia instituída, vencem as eleições os candidatos mais carismáticos. Pouco importa a ideologia. Conceitos de esquerda e direita, capitalismo e socialismo, democracia, liberalismo e reacionarismo, etc. não fazem parte do vocabulário popular. Assim, acontece de candidatos das mais diversas ideologias, aleatoriamente, ocuparem os mais diversos cargos, unicamente devido ao seu carisma – para dar um de muitos infelizes exemplos, Tiririca -, possibilitando a convivência, no jogo da política, tanto de forças liberais quanto de forças reacionárias – apesar do povo ser, naturalmente, reacionário. O povo não sabe que é reacionário, não sabe nem o que é isso, mas é.
E, não é de se espantar que também nunca foi um povo muito fã da ciência. Nunca valorizou o conhecimento. Ainda que pelo esmero de alguns poucos tenham sido fundadas algumas das instituições mais importantes desse país – refiro-me às universidades públicas – o pessoal não parece reconhecer muito a utilidade delas. Para o povão, faculdade é faculdade, tanto faz se pública ou particular; ignora a questão da produção científica, da produção de conhecimento, do questionamento da sociedade. Tudo isso é visto como secundário. A própria educação primária é vista como algo não muito importante, e não é de hoje a idéia “estudante não trabalha”. Todos os países ou mesmo famílias e indivíduos – salvo por algumas excepcionais jogada de sorte – que prosperaram, foi pela dedicação ao conhecimento.
Isso explica como quase todas as opiniões populares sobre os acontecimentos mais recentes na USP são contra os estudantes e a favor da PM. Na verdade, eu também fui estudante, em São Carlos. Sei bem que o povão nunca gostou muito dos estudantes. Dependesse da população nativa, as universidades públicas sequer teriam sido instaladas na cidade. São Carlos seria uma Descalvado maiorzinha – nada mais do que isso. O país como um todo perderia boa parte de sua produção científica. Ainda assim, o povo prefere a ordem.
O fato é que a universidade é a instituição que representa a intelligentsia de um país. No caso do Brasil, esse papel é exclusivo das universidades públicas, pois as particulares, dada sua natureza mercantilista, são meras produtoras de profissionais não dispostos e nem capazes de questionar. Apenas a universidade pública pensa a sociedade, debate teorias, questiona com interesse a situação, a ordem, a estrutura do mundo. A universidade naturalmente vai contra o princípio da ordem, justamente por que questionar é contra o princípio da ordem. Quando surge uma nova idéia, ela causa abalo, instabilidade na sociedade. A universidade faz isso, ao criar suas novas correntes modernizadoras. E é por isso que a universidade é mal-vista pelo povão: por que ela questiona o sistema. Por que ela é liberal, e jamais seria capaz de ser inovadora – inovadora em um sentido real e universal, e não no clichê sem sentido empresarial – sem essa característica.
E são principalmente as ciências humanas que atacam a ordem. As ciências exatas normalmente estão produzindo ciência, sem questionar o sistema. Estão criando novas teorias físicas, químicas, inventando novos remédios, novas máquinas, novas tecnologias. Essas mudanças não causam um impacto significativo na ordem, na estrutura do sistema social; tal impacto provém justamente das ciências humanas.
Estudei também em universidade pública – não a USP, mas também em minha universidade a PM não podia entrar senão por força maior ou com autorização expressa da reitoria. No meu caso, havia uma certa violência no campus, mas em muito menor escala do que na USP Butantã. Mesmo assim, a reitoria sempre usou da violência e de acidentes para justificar a retirada de coisas dos estudantes que iam contra a postura moralista dos reitores, prefeitos e cidadãos sãocarlenses, culminando, esse ano, em proibir um dos eventos mais tradicionais e importantes da vida universitária – o CORSO. Essa é uma tendência dos reitores atualmente: impor uma repressão moralista, usando eventos infelizes como justificativa. Se morreu um estudante no CORSO, proíbem o CORSO. Nenhum prefeito ou reitor ousaria, porém, proibir o carnaval, mesmo que morresse metade da cidade em um acidente com os carros alegóricos. Isso seria o mesmo que decretar sua morte política. Dessa forma, não me espantaria se o reitor da UFSCar convidasse a PM para o campus, se é que isso já não aconteceu e eu, já desligado da vida acadêmica, não tenha tomado conhecimento. E eu não gostaria nada disso, como não gostei de nenhuma das graduais retiradas de liberdades. Não ocupei a reitoria, porém. Como estudante de engenharia, era ocupado demais para isso. Para isso existem os estudantes de humanas
eles até fizeram os protestos deles, mas não conseguiram mudar nada.
Mas o fato é que a polícia em um campus é uma presença indesejável, destoante do ambiente liberal, pensante e questionador. Estudante e policial não falam a mesma língua. A língua do estudante é o do questionamento, do debate, enquanto a do policial é justamente o contrário – é a da violência, da imposição de autoridade. A polícia é sim útil a sociedade, justamente por que fala a mesma língua dos bandidos – a língua da violência. É natural que a presença da PM em um campus de universidade pública fosse dar merda.
Eu, pessoalmente, acho importante deixar as universidades públicas – mais importante até do que a questão da segurança – como ilhas nonde a ordem não se impõe, pois é dessas ilhas que saem as idéias que poderão um dia nos colocar em uma situação melhor. Sem essa força criativa, o mundo nunca vai mudar. O povo não tem força criativa, pelo contrário, é reacionário, como vimos; deixemos ao menos os estudantes dar sua contribuição à sociedade, a seu modo, em paz; mesmo por que, tentar impor ordem no campus equivale a matar a inteligência do país. PM no campus equivale a transformar a universidade pública num criadouro de profissionais incapazes de questionar – tal qual a universidade particular. Não é errado, assim, afirmar que a presença da PM no campus é um passo em direção à mercantilização do ensino público, acabando com uma das poucas e últimas coisas públicas que ainda funcionam nesse país.
Muitos estudantes da USP, por outro lado, desejam a PM por lá, já que a falta de segurança chegou a um nível tal que se sentem dispostos a sacrificar liberdade pela ordem. Esses, ao menos apresentam um argumento sólido, ao contrário do povão nos comentários do Yahoo, Terra e outros portais da vida sobre as notícias da USP, que abusam de falácias, generalizações sem base, como estudante é tudo maconheiro, que eles não querem a polícia lá para poder fumar maconha, que são os estudantes que geram a violência da sociedade por que fumam maconha – como diria o Capitão Nascimento, ignorando por completo o fato de que tal violência só existe devido à repressão policial – etc. Claro, antes de poder estudar e criar alguma coisa, um estudante precisa ter segurança. O que eu questiono é, será que convidar a PM é a maneira certa de fazer isso, e será que o que se abre mão ao abrir o campus para a PM compensa a segurança dada?
É, portanto, preciso pensar de maneira mais abrangente, fugir ao simplismo do “preto no branco” e analisar a situação com mais perspicácia antes de formar uma opinião sobre os estudantes e a universidade pública, por que não se trata de uma mera questão de baderna de estudantes por causa da prisão de alguns deles pela PM. O que está sendo questionado é algo muito mais profundo do que isso.
Do Declínio do Gênero Masculino
Foi apenas recentemente que a mulher assumiu, em escala global, um posicionamento não inferior, não subjugado ou coadjuvante em relação ao homem. A atual realidade eleva a mulher e a faz o sexo principal, mais importante na sociedade, e com tendência a ficar cada vez mais poderosa em relação ao homem. Como foi possível a ocorrência de tal fenômeno – ou como o sexo forte assistiu, passivo e impotente, para usar as palavras que mais teme – à ascenção do sexo frágil e ao próprio declínio?
Pode-se identificar diversos fatores, ao longo da história, com alguma relação de causa em relação ao novo poder feminino. Se pensarmos nos pilares que sustentavam o antigo poder masculino, podería-se enumerar: A sensualidade masculina, a força masculina e a inteligência* masculina.
A sensualidade masculina era um dos sustentáculos do poder masculino, ao menos na civilização ocidental clássica. Qualquer um que estude a Grécia ou a Roma antiga perceberá que a sensualidade masculina era apreciada universalmente – tanto pelas mulheres quanto pelos próprios homens, como demonstra a estética que sobreviveu ao tempo, como as estátuas realçando os corpos e traços masculinos, a plena aceitabilidade das relações homossexuais que em momento algum era associada com fraqueza ou afeminização, pelo contrário, era vista como sinal de virilidade**. Tão natural era isso culturalmente, que não era incomum na época um homem ter, além da esposa que servia apenas para reprodução e para as tarefas domésticas, seus amantes homens, normalmente jovens adolescentes (I).
Quando o monoteísmo oriental baniu tudo aquilo da cultura clássica que contrariava seus dogmas, acabou o sustentáculo da sensualidade masculina. A mulher, que antes era indispensável apenas para uma coisa – a maternidade – agora era indispensável também para a sensualidade. Concentrou-se na fêmea toda a sensualidade humana, à medida que o homossexualismo passou a ser considerado inaceitável aberração para os medievais. Também o tabu do prazer feminino, visto como pecaminoso na mentalidade medieval, suprimiu totalmente da humanidade – ao menos do eixo Europa – Oriente Médio – a sensualidade masculina, até mesmo do ponto de vista das mulheres, censuradas pela religião da mera idéia de sentir prazer, impedida assim de apreciar a sensualidade em qualquer forma. A sensualidade feminina, por outro lado, não se enfraqueceu nessa revolução cultural. O prazer não foi transformado em tabu para os homens. Pelo contrário, ter muitas mulheres, apesar de oficialmente errado na cultura ocidental (e embora aceito na muçulmana), continuou a ser associado a nível popular com poder e virilidade e isso fortaleceu a sensualidade feminina ainda mais. Por mais machista que se possa considerar, no mundo de hoje, as religiões monoteístas tradicionais – a começar pelo judaísmo, depois pelo cristianismo e por fim o islamismo – foram responsáveis por dar um enorme poder à mulher. O poder da sensualidade.
O homem medieval, desprovido de sensualidade, manteve ainda a força como sustentáculo de seu poder. O mundo medieval era um mundo em que a força física era indispensável – como sempre fora, até então -, força essa que apenas os homens dispunham, tornando as mulheres totalmente dependentes do homem. Naquele mundo as mulheres, sem os homens, não conseguiriam sequer se alimentar***. Não seriam capazes de arar as terras, de domesticar os animais, de caçar, de construir castelos, de forjar espadas e armaduras, de trajar e manejar aqueles apetrechos bélicos medievais que eram pesadíssimos, de manejar com perícia um arco-e-flecha****, etc.
Desde os primórdios da humanidade até muito recentemente, a força garantia ao masculino a supremacia perante o feminino, à medida que esse dependia daquele para a sobrevivência em um mundo no qual a força era fator decisivo, tanto para conseguir o que comer quanto para se defender de inimigos naturais e inimigos humanos. É extremamente recente a possibilidade de ingresso das mulheres nas forças armadas, e ainda assim limitada – fator esse que, aos poucos, está mudando. Encontramo-nos em uma fase de transição, mas ainda onde o quesito força é importante, também mais importante é o homem do que a mulher. Sobra, assim, de forma residual a força como um diferencial para o masculino, mas somente em alguns redutos. Em um exército beligerente da segunda guerra mundial, por exemplo, ainda era impensável a presença de mulheres entre os envolvidos diretamente no combate, e isso não por preconceito, mas por mera questão de eficiência; os exércitos adorariam poder contar com mais manpower para engrossar suas fileiras, mas um exército com mulheres seria menos eficiente, mais frágil no combate. Poder-se-ia imaginar uma mulher ordinária percorrendo grandes distâncias nas mais adversas condições – desde o severo inverno russo até o escaldante sol do deserto do Saara, manejando fuzis ainda não tão desenvolvidos e fáceis de usar, morteiros pesados, tanques de guerra, aviões de dirigibilidade extremamente complicada e manches pesados, e muitas outras dificuldades? Seria ela não mais do que um estorvo para os colegas e desperdício de recursos?
A força, entretanto, hoje em dia já não é mais primordial – e quem retirou esse segundo e talvez mais característico pilar de poder masculino foi a tecnologia. À medida que trabalhar, produzir, manejar armas ficava cada vez mais fácil e leve, devido ao avanço tecnológico, a força foi ficando cada vez menos necessária, possibilitando à mulher ocupar cada vez mais nichos tipicamente masculinos e a depender cada vez menos do homem para seu próprio sustento e sustento da prole. No mundo de hoje, não precisa mais ter força para ser produtivo e conseguir o próprio sustento, tudo é macio e fácil de operar, o computador quase não exige esforço físico e obter alimento hoje limita-se a deslocar-se a um supermercado e percorrer os corredores, colocando no carrinho aquilo que o dinheiro do salário pode pagar. As máquinas fazem todo o trabalho pesado, todo o trabalho que exige força e resistência – desde a agricultura até a mais pesada das indústrias. O homem, embora não tenha perdido sua força física, vive em um mundo diferente, em que sua força não mais é essencial.
Mas, mesmo sem o pilar da sensualidade e com o pilar da força morrendo aos poucos após a revolução industrial, o domínio masculino ainda se manteve forte na sociedade, graças ao raciocínio lógico superior – que, para fins de simplificar, chamo simplesmente de inteligência (embora isso possa obscurecer o fato de que a mulher foi agraciada pela natureza com outros tipos de inteligência nos quais é superior ao homem). A mesma tecnologia que tornou obsoleto o poder da força masculina, foi quase que, senão totalmente desenvolvida pelo gênero masculino. Desde a antiga filosofia grega (da qual eu, pelo menos, conheço apenas homens: Sócrates, Platão, Tales, etc.), que sobreviveu de certa forma à idade média graças aos monges cristãos como Santo Agostinho (também não me ocorre nenhuma figura proeminente feminina) e aos notáveis mestres medievais árabes, como Ibn Sina, Al-Khwarizm, Al-Qasim, Al-Jabr, apenas para mencionar alguns (nenhuma mulher também me vem a mente), e depois a efervescência filosófico-científica disparada pelo renascimento, conduzido também por homens como Copérnico, Galileu, Da Vinci (um nome feminino? Aguardo sugestões…) e o notável progresso científico-filosófico que se seguiu ao renascimento, com nomes como Kepler, Voltaire, Leeuwenhoek, Newton, Laplace, Pascal, Lavoisier, Adam Smith, John Locke, etc. Mulheres? Talvez possamos mencionar Madame de Staël, mas essa não é tão famosa assim, e talvez só tenha sido reconhecida por ser de família rica. Enfim, ainda no início do século XX a ciência era reduto masculino. Einstein, Oppenheimer, Schrödinger, Planck, Heisenberg, Freud, Pavlov, Zuse, Turing, Von Newman, etc.
Foi também a tecnologia que moldou o mundo de tal forma que a inteligência masculina deixou de ser fundamental, e deu até um certo foco ou preferência à inteligência feminina. Do mesmo jeito que as coisas eram mais pesadas antigamente, também eram mais difíceis de manejar. Não havia carros automáticos, não havia computadores para fazer cálculos, a produção exigia uma visão geral de todo processo – coisa que a revolução industrial tirou de foco, passando a valorizar o trabalho simples e repetitivo, favorecendo fortemente o gênero feminino. No universo empresarial de hoje, a vantagem do homem é apenas residual e a tendência é que as mulheres superem os homens nas funções administrativas, pois elas têm melhor comunicação, inteligência emocional. As mulheres são melhores psicólogas, melhores enfermeiras e, quanto mais a medicina se divide em especialidades exigindo menos visão geral, mais também as mulheres vão sendo melhores médicas; as mulheres, mais detalhistas, são superiores em trabalhos de testes e controle de qualidade; mais organizadas, são melhores secretárias, zeladoras, e uma ampla gama de funções em que a organização é uma vantagem; a ciência já pode ser também praticada pelas mulheres, na guerra também alguns papéis como intendência, por exemplo, e aos poucos papeis mais envolvidos diretamente no combate podem já ser executados, às vezes com vantagens, pelas mulheres, e eu poderia me extender em exemplos indefinidamente, para mostrar que o mundo de hoje é um mundo em que as qualidades das mulheres – como inteligência emocional, comunicação, simpatia, sensualidade, etc – são mais importantes que as qualidades do homem.
Assim, de sexo frágil, a mulher se viu, em meados do século XX, o sexo forte, mais essencial que o gênero masculino, pela primeira vez na história da humanidade. O que se mantinha de poder do homem era meramente residual, simbólico, nominal. Já não tinha mais seus pilares de sustentação, e era natural que um movimento feminista surgisse reclamando o reconhecimento daquilo que se tornara realidade. O gênero masculino havia construido um mundo para o qual o gênero oposto era melhor adaptado.
A mulher, no mundo de hoje, é que tem pilares de sustentação para seu poder. Ela tem o poder da sensualidade e o poder da inteligência (agora refiro-me à emocional). A ciência deu à mulher a pílula anticoncepcional – e com isso a maternidade, antes uma obrigação, ganhou a possibilidade de ser controlada, passando a ser o que considero hoje o terceiro pilar de dominação feminino. A religião perdeu muito de seu poder de influência na vida das pessoas e com isso as mulheres já também não temem usar de métodos abortivos, como outrora. O homem, se ainda é, em partes, necessário para a reprodução, é também já descartável. Pouco conta sua vontade, na questão da reprodução. Tanto o negar quanto o exercer a maternidade pode e é usado amplamente por muitas mulheres hoje em dia para obter vantagens dos homens*****. E, os novos métodos de reprodução apontam até ao efetivo descarte do masculino como parte necessária da reprodução: é possível gerar um humano em laboratório sem espermatozóides, porém é inimaginável, inconcebível, sem óvulos. Um casal de lésbicas pode, teoricamente, ter filhas (somente fêmeas) biológicas através da fertilização in vitro, apenas com seus próprios gametas. Um casal de gays também pode, em teoria, ter filhos ou filhas, mas depende de um óvulo e um útero, coisa que não têm. Embora essas conjecturas possam parecer surreais ou chocar alguém mais conservador a primeira vista, é nessa direção que aponta a bússola da história, e o momento de transição que vivemos é exatamente esse: a transição da dominação masculina para a dominação feminina. Embora se pregue que estamos caminhando em direção à igualdade, tal prospecto parece-me errôneo.
Para concluir: nada mais aceitável, em minha opinião, que homem e mulher estejam em igualdade em relação ao respeito que a ambos se deve. Discriminação não é aceitável, considerar o gênero em vez da competência é ridículo. Não concordo, porém, que homens e mulheres sejam iguais biologicamente. Gostaria que vivessem em bons termos; mesmo porque, caso contrário, quem perde é a humanidade como um todo.
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* Uso inteligência, no texto, de maneira que pode causar confusão, mas que tomei a liberdade por me permitir uma melhor fluência e entonação da qualidade que buscava evidenciar. Na verdade, quando digo que o homem é inteligente, quero dizer que o homem é mais inteligente em sua própria inteligência – predominantemente racional e lógica. Da mesma forma, quando digo que a mulher é inteligente, ela é inteligente também em sua própria inteligência – predominantemente emocional e comunicativa. Sobre esse assunto, interessante consultar (II).
** A mentalidade do homem contemporâneo, forjada desde o fim da antiguidade clássica com a queda de Roma e ascenção até a total supremacia das religiões monoteístas, ainda que uma nova onda de tolerância ao homossexualismo tenha surgido recentemente, dando origem a uma nova tendência cultural, e importante frisar, de um modo geral – com todo respeito aos homossexuais que divergem dessa corrente maioritária – o heterossexualismo ainda é indissociável da virilidade. Para exemplificar, eu, tendo sido criado totalmente imerso em nossa cultura que muito bem conhecemos, sou heterossexual. Não consigo ver sensualidade em outros homens, chegando a ser – friso novamente, apenas pessoalmente, com todo respeito a quem pense de outra forma – repugnante, asquerosa, nojenta a idéia de amor com outro do mesmo sexo. Uma questão que surge daqui é: será que eu, ou qualquer outro homem heterossexual contemporâneo, teria essa mentalidade se tivesse crescido na Grécia antiga? A análise dessa questão não é trivial, porém foge ao escopo desse artigo, ficando para se pensar.
*** Com algumas raras e notáveis exceções. Reitero: exceções. Como Joana D’Arc, por exemplo. Deve-se mencionar, no entanto, que ela tinha um exército de HOMENS atrás de si. Com um exército de mulheres, tanto ela quanto o hipotético exército feminino francês teria sido eliminado fácil e rapidamente.
**** Os homens têm, naturalmente, uma ligeira vantagem visual, ao menos no que concerne ao manejo de arcos-e-flechas: a capacidade de focar em um objeto mais facilmente e de enxergar melhor a distância. (A mulher, por outro lado, tem um ângulo de visão ou visão periférica mais ampla, distingue detalhes mais facilmente e consegue prestar atenção em várias coisas ao mesmo tempo). Sobre isso, encontrei um interessante artigo de blog (III).
***** Tal uso da maternidade é, para mim, extremamente imoral (embora não ilegal e embora, em nosso mundo, já esteja banalizado a ponto de ser considerado normal, não despertando indignação). Nunca é demais salientar que não estou sequer generalizando; estou apenas constatando que tal fator de manipulação é utilizado, sem inferir, de maneira alguma, que todas ou sequer a maioria das mulheres assim procedem. Além disso, ainda que nenhuma mulher utilize, tal fator tem o potencial de ser utilizado a qualquer momento por qualquer mulher.
I) Hein van Dolen – Greek homosexuality (http://www.livius.org/ho-hz/homosexuality/homosexuality.html)
II) Prof. Dr. Renato M.E. Sabbatini – Existem diferenças cerebrais entre homens e mulheres? (http://www.cerebromente.org.br/n11/mente/eisntein/cerebro-homens-p.html)
III) Camila Diesel – Ciência explica diferenças entre homens e mulheres (http://camiladiesel.wordpress.com/2010/01/13/ciencia-explica-diferencas-entre-homens-e-mulheres/) Procurar subtítulo “Campos visuais diferentes”.
Estréia da copa de 2014 em São Paulo e o estádio do Corinthians
Ontem, dia 20 de outubro de 2011, foi um dia a ser comemorado por São Paulo. A cidade foi finalmente confirmada pela FIFA como a sede do primeiro jogo da copa do mundo de 2014, que será um jogo da Seleção Brasileira. Enquanto isso, o debate acerca do estádio, cuja construção se encontra ainda a 15% da obra pronta, é mais fervoroso do que o debate acerca de questões realmente importantes, como as inúmeras reformas políticas pendentes, a demanda por melhores condições de trabalho, redução de impostos e sua cobrança de maneira menos burra e extorsiva, fim de privilégios absurdos como imunidade e presunção de inocência que gozam figuras públicas como políticos e magistrados (já que, em teoria, todos deveriam ser iguais perante a lei, independentemente de ocuparem cargos públicos, políticos, etc), etc.
Já que ninguém quer falar de coisas sérias, entro eu no calor da discussão do momento para desconstruir algumas opiniões imponderadas de pessoas que atacam o projeto do Itaquerão destrutivamente, sem apresentar alternativa melhor, ignorando os benefícios, enfim, discutem sem argumentos sérios, apenas criticam e esbravejam por questões de rivalidade, atacando assim a própria cidade. Críticas que tenho ouvido no dia-a-dia ou lido na internet, refletindo a opinião da grande massa. Não que não haja problemas, há sim, mas ninguém fala nada no sentido de resolvê-los. Apenas se vê críticas, nenhuma sugestão de melhoria. Algumas delas tem fundamento, outras são meras falácias e outras ainda não passam de rancor de torcida rival. No caso do Corinthians, em especial, todas as demais torcidas são rivais. Mas isso é outra história. O que pretendo analisar aqui, são algumas críticas a esse estádio muito populares, apesar de infundadas.
“O estádio está sendo construído com dinheiro público.” O dinheiro é público, mas não foi dado. Foi emprestado pelo BNDES. Serão cobrados juros, como qualquer financiamento. Se isso é errado, então é errado também fazer financiamento na Caixa para construir uma casa. Diga-me um clube brasileiro que tem dinheiro para fazer um estádio sem financiar, do zero, com recursos próprios, hoje em dia? E mesmo entre nós, pessoas físicas, quem temos dinheiro para fazer ou comprar uma casa, sem financiar um centavinho sequer? Se você for um dos poucos e privilegiados ricos o bastante para isso, pode até chamar o Corinthians de pobre, mas não de desonesto ou imoral. Caso contrário, se você pega dinheiro da Caixa pra comprar seu imóvel ou ainda está no aluguel, você está igual ou pior daquilo que critica, o que lhe retira toda legitimidade e credibilidade para fazê-la.
“Vai pagar nada! O Corinthians vai acabar dando balão nessa dívida ai, não conhece o Brasil como é?” Se não pagar, o clube vai ter que enfrentar as consequências de não pagar. E essas consequências podem ser desde ter que devolver o estádio ao banco até o fechamento, falência do Sport Club Corinthians Paulista. Pode ser que realmente não consiga pagar, mas não faça essa crítica a não ser que você, torcedor de outro time, já tenha seu imóvel próprio e quitado.
“E aquela isenção de impostos, o governo cobra impostos do povo sem dó, mas do Corinthians vai isentar, absurdo isso! Deixar de arrecadar é o mesmo que gastar!” Absurdo é pensar dessa forma, já que, se não houvesse a tal isenção, não haveria estádio. E se não houvesse estádio, não haveria impostos do mesmo jeito. A isenção não é perpétua e, uma hora começará a render preciosos recursos para a prefeitura e consequentemente para o povo, apesar da roubalheira. Ademais, muito será arrecadado por conta da copa, muito dinheiro de fora será gasto na cidade. Recursos esses que não seriam arrecadados, não fosse pelo estádio.
“O terreno foi dado de graça pela prefeitura para beneficiar o Corinthians!” Foi feita uma concessão, na época, em troca de o Corinthians construir ali um estádio, beneficiando a região. O estádio não foi construído no prazo determinado, porém foi feito um acordo na justiça (Termo de Ajustamento de Conduta) em que o Corinthians arcaria com benfeitorias na abandonada infra-estrutura da região – com recursos próprios – em troca de manter a concessão. Assim, esse atraso do Corinthians não foi “perdoado”; ele teve que pagar, como citado acima.
“Ainda assim, o Corinthians ganhou o terreno QUASE de graça”. Se você for são-paulino, procure se informar a respeito do terreno do Morumbi primeiro. Venha aqui, conte a história dele, e depois faça sua crítica.
Para facilitar a pesquisa, aponto alguns links:
http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2010/09/10/mp-investiga-possiveis-irregularidades-na-doacao-do-terreno-do-morumbi-ao-sp.jhtm
http://esportes.r7.com/futebol/times/sao-paulo/area-publica/noticias/associacao-de-moradores-acusa-o-sao-paulo-por-irregularidades-no-terreno-do-morumbi-20100910.html
http://terceiraviaverdao.blogspot.com/2008/08/irregularidades-no-estdio-do-morumbi.html
Se não for são-paulino, e seu time comprou o terreno de seu estádio com recursos próprios, parabéns, mas antes de fazer a crítica pense ainda como um bom paulistano e ofereça uma alternativa melhor, legal e viável, para a prefeitura fazer com aquele terreno abandonado na zona leste. Aliás, não se restrinja a conjecturar; vá à câmara municipal, e ofereça essa sua alternativa, se aplicável, a outros terrenos como este, já que nesse terreno em particular a construção do estádio já é realidade, não dá mais para desfazer.
“Tem superfaturamento nas obras do Itaquerão!” É claro. Trata-se de uma obra feita no Brasil. Aponte-me uma, do mesmo porte, que não tenha um superfaturamentozinho sequer. Atual ou histórica.
“De qualquer forma, o Morumbi pelo menos já está pronto, por que não pode ser utilizado? Só porque é do São Paulo? Homofobia isso, hein!!!” O Panetone apresenta sérios problemas de infra-estrutura. Não pode chover que ele vira um piscinão. As reformas necessárias foram orçadas em 600 milhões. O São Paulo afirmou que não tinha condições de custear mais do que 1 terço.
“E por que a prefeitura não deu então incentivos fiscais para o São Paulo?” Parece birrinha, mas tem muito bambi infantil o suficiente para esse tipo de comportamento. O que acontece é o seguinte: o Panetone é um estádio que já está construido. Esse sim, se fossem dados incentivos fiscais (que, aliás, foram dados na época de sua construção) acarretariam uma perda de receita considerável para a prefeitura, e no curto prazo. Político nenhum daria um tiro no pé desses, nem mesmo um prefeito são-paulino fanático faria isso.
“E o BNDES, por que não emprestou para o São Paulo?” Banco, quando não empresta, é por um dos dois seguintes motivos: 1) o cliente não pediu, por que não quer, não pode ou por algum motivo qualquer; 2) o cliente pediu, mas o banco avaliou que o cliente não tem condições de pagar. Eu realmente não sei o que aconteceu, mas uma coisa é certa: o São Paulo, que adora posar de riquinho, não apresentou garantias financeiras de seu projeto. Se tivesse apresentado, certamente teriam escolhido o Pinicão do Jd. Leonor, em vez de um estádio que sequer fora construído. O Corinthians – sempre taxado de “favelado” – apresentou as garantias financeiras para garantir a abertura da copa. O pessoal da FIFA, de tonto só tem a cara. Óbvio que eles estudaram e pensaram muito bem – principalmente a questão financeira – para escolher a opção de menor risco, por que onde eles iriam enfiar a cara se não tivesse um estádio decente para a abertura da copa? É a própria imagem e reputação política deles que está em jogo. Não se arrisca poder político assim, a troco de nada, não nesse mundo que vivemos.
Eu pessoalmente vejo com bons olhos essa construção. Independentemente de ser corinthiano; vejo com bons olhos, apesar dos problemas e da roubalheira, creio que a construção dos estádios, não só do Corinthians mas todos os outros da copa, e também o fato de copa e olimpíada terem sido trazidos para cá, representam progresso, desenvolvimento, futura arrecadação de impostos, desenvolvimento do comércio local, empregos (tanto os da construção quanto os que ficarão no futuro, administração do estádio, segurança patrimonial, comércio ambulante nos dias de jogos e arredores do estádio, etc.).
Ademais, não é culpa da copa que saúde e educação e tudo o mais está caótico em nossa pátria querida. Ficamos mais de 60 anos sem copa, e mesmo assim saúde e educação só pioraram. Com ou sem copa, o abandono seria o mesmo. Aliás, os problemas brasileiros, como saúde, educação, infra-estrutura e outros não se resumem a falta de recursos. Recursos são, na verdade, o menor dos problemas. Tem o problema da desorganização inerente, da falta de senso de comunidade e excesso de individualismo brasileiro – coisa que sentimos até orgulho e nos gabamos de sermos mais “malandros” e “maliciosos” do que os outros, da burocracia excessiva, generalizada e paralizante, da ineficiência da máquina pública, do incentivo do próprio sistema político ao desprezo do planejamento de longo prazo em todas as esferas, da impunidade de alguns privilegiados (por que ladrão de galinha é preso com muita eficiência e tratado com o maior rigor da lei), leis ridículas que beneficiam o desonesto e punem o honesto, e uma série de outros nós nesse novelo embramado, nesse território bagunçado que alguns se arriscam a chamar de país.
Concluindo: antes de criticar o estádio do Corinthians:
- Faça uma auto-crítica;
- Faça uma crítica de seu clube e de seu governo;
- Pense um pouco antes de falar, para não dizer merdas argumentos infundados e falácias;
- Tenha uma sugestão ou ofereça uma alternativa melhor àquilo que critica.
Da mediocridade áurea
Não vivemos em um mundo no qual a mediocridade é apreciada. Tal palavra é até mesmo considerada sinônimo de ruindade. Em nosso tempo, louva-se exatamente o oposto: a intensidade. Admira-se atitudes e comportamentos extremos, radicais. O equilíbrio, o meio termo, a razoabilidade não são apreciados. Em seu lugar, pratica-se e elogia-se o abuso, o exagero, o desequilíbrio.
Olhamos para nosso mundo e vemos numerosos exemplos disso. O sujeito determina que ele quer saúde. Então ele se submete a uma série de restrições, declara guerra à alimentação prejudicial à saúde (sem considerar que prejudicial é relativo), obriga-se a uma agenda rigorosa de prática de esportes, gastando horas e dinheiro com academia, exames médicos, esportes, etc. Claro, a pessoa ganha uma tendência a ser mais saudável, viver alguns anos a mais, porém, quando se soma tudo o que ele ganhou, será que compensa tudo o que ele teve de abrir mão?
Outro decide viver a vida com intensidade, ainda que isso a encurte. Geralmente cantores e artistas caem nessa armadilha. Adquirem toda sorte de vícios. Comportam-se de maneira exageradamente descontrolada, praticam a promiscuidade irrestrita, envolvem-se em escândalos, etc. Indiscutivelmente, conseguiram a vida intensa que desejaram. Mas ai vemos sujeitos como Cazuza, Amy Winehouse, Kurt Kobain, etc, acabarem do jeito que acabaram, e novamente vem a pergunta: será que o que abriram mão compensou o que ganharam com o exagero?
Uma outra figura conhecida é o “workaholic”. O sujeito encuca que quer ganhar dinheiro, subir na vida, vencer, ter sucesso, incorporando à sua própria vida tais clichês do universo empresarial. Um daqueles empresários que o chefe nem pediu, mas lá está ele, às 21:30, trabalhando sem nenhum sinal de cansaço, devido ao constante consumo de cafeína, desde as 8:00. Não lhe ocorreu que passou o dia todo, o sol nasceu e se pôs e ele sequer viu o dia, não lhe resta mais tempo senão para chegar em casa, tomar banho, comer alguma coisa e dormir, e ainda não viu sua família, não pensou, não leu, não fez alguma atividade para si próprio, não fez nada, sua vida passa e ele nem sequer está a par disso? É muito provável que um sujeito assim tenha uma tendência a ganhar mais dinheiro. Mas de que adianta o sucesso profissional, o dinheiro, se o sujeito, depois de vinte anos nessa vida, sequer se lembra como se aproveita a vida? Não deixa de ser pertinente mais uma vez a pergunta: compensou?
A resposta, em todos esses casos, é um simples e categórico não! Tudo o que é exagerado, obsessivo, vicioso, desequilibrado, nunca compensa, pois o custo é sempre maior que o benefício! E é exatamente aqui que reside a dificuldade de compreensão das pessoas de nosso tempo. Sem a inteligência para perceber a relatividade das coisas, as pessoas assumem algo como sendo bom, independentemente da quantidade. Não se considera que a diferença entre remédio e veneno não é a substância em si, e sim a dose. Passa-se desapercebido que o mesmo calmante que ajuda a dormir, no abuso torna-se o maior inimigo do sono. A mesma bebida que ajuda a descontrair e relaxar, e tem até propriedades benéficas ao organismo, no abuso torna-se uma das piores desgraças que uma pessoa pode causar a si própria e à sua família, o alcoolismo. Até mesmo o alimento, que é necessário para nossa sobrevivência, no abuso transforma-se em agressor de nossa saúde e consequentemente de nosso próprio bem-estar. Não há nenhum problema em buscar o benefício, o prazer, a felicidade, o sucesso, desde que não se sacrifique mais do que se ganhe nesse processo!
Não é uma idéia que se consegue transmitir facilmente às pessoas de nosso tempo. Só se entende as coisas de maneira maniqueísta. Voltemos ao exemplo do álcool. Pergunta-se a duas pessoas: álcool é bom ou é ruim? Uma delas afirma categoricamente que é ruim. E, assim entendendo, abstém-se completamente do álcool. Não ingere uma única gota sequer de bebida. A outra afirma que é bom, e bebe sempre, com motivo, sem motivo, em casa, etc. Ela bebe por que entende que o álcool é uma coisa boa, e o que é bom, quanto mais melhor.
Mas ambas estão erradas. O álcool, como todas as coisas, não é bom e nem ruim. Ele pode vir a ser bom, como pode vir a ser ruim, dependendo de como é usado. Ser radicalmente abstêmio não é ideal (embora seja muito preferível a ser alcoólatra), pois deixa-se de aproveitar uma coisa boa da vida, que é o álcool. Mas tornar-se alcoólatra é de uma burrice assombrosa, aquilo que poderia ser bom transforma-se em um inferno. Não fica óbvio, que a melhor opção é o meio-termo? Não ser abstêmio, nem alcoólatra?
Nos dias de hoje, as pessoas não parecem ver a opção do meio-termo. Ou uma coisa é boa, ou é ruim; se boa, quanto mais melhor, se ruim, foge-se como se foge do inferno. É assim que nossas raízes greco-romanas vêm sendo corrompidas pelo pensamento maniqueísta e supersticioso medio-oriental há milênios. O primeiro lapso de entendimento da consciência coletiva atual reside ai: não há coisa absolutamente boa ou coisa absolutamente ruim. Em outras palavras, não é possível atribuir, de maneira absoluta, essas características. As coisas somente adquirem a característica de boas ou ruins, em função do contexto, da pessoa, da intensidade, etc.
Por isso, quem deseja aproveitar a vida da melhor maneira possível, deve evitar os extremos. Abster-se ortodoxamente das coisas não é desejável, por que restringe o aproveitamento dos prazeres; mas exagerar nas coisas também não, pelo simples fato de que a natureza de nossos corpos e mentes é tal, que qualquer exagero torna-se prejudicial. Isso bem sabiam os romanos, quando diziam: “Aurea mediocritas”.
25.09.2011 – Oktoberfest em Munique
Normalmente, aquele trem era silencioso e com muitos lugares vagos. Não eram muitas pessoas que, tão cedo, as 09h03 da manhã de um domingo, precisavam viajar. O trem regional que faz o caminho Nürnberg-München, no entanto, não tinha a mínima de sua habitual tranquilidade naquele dia. Totalmente lotado, com muita gente de pé, em clima de festa, e boa parte das pessoas com trajes do século XIX.
Assim seguíamos com direção a Munique, e a cada parada mais camponeses e camponesas (refiro-me às pessoas com trajes típicos) entravam no trem. Por uma maravilhosa felicidade, haviam mais camponesas do que camponeses no trem, de modo que a lotação, ao fim das contas, não estava assim tão insuportável. As camponesas eram bonitas mas, devo salientar, minha esposa deixa todas elas no chinelo.
Chegando em Munique, não foi difícil encontrar o recinto onde ocorria o famigerado evento. Segui as camponesas as pessoas com trajes típicos. E o layout era bem parecido com a Volksfest, de Nuremberg: um parque de diversões, milhares de barraquinhas vendendo lembrancinhas e lanches, e alguns barracões onde rolavam os litrões de cerveja e as bandinhas tocando músicas típicas.
Devo admitir que, com os óculos escuros e a barba mau-feita que estava e uma mochila nas costas, e a cara de turco (sim, na cabeça dos alemães eu tenho cara de turco, já me disseram isso algumas vezes), eu estava parecendo um terrorista muçulmano. Tanto que eu nem me espantei, quando a polícia, na entrada do evento, pediu para ver o conteudo de minha mochila. Porém, a abordagem policial aqui não tem nada a ver com a abordagem no Brasil. E não houve revista. Aqui, os policiais pedem para ver a mochila, chamam você de senhor, tratam-te com toda educação e respeito. E, além do mais explicam o perigo do terrorismo, e agradecem e desejam uma boa festa. Muito diferente da polícia brasileira, que já vai revistando a torto e a direito sem solicitar, apenas exigindo e ordenando, enfim, sem o mínimo de respeito, como se o cidadão estivesse a serviço deles e não o contrário, isso quando não usam de agressão física não-provocada, desnecessária e desproporcional, que lamentavelmente quase nunca é punida e ninguém mais se espanta com isso. Depois, ainda se pergunta por que as pessoas não gostam da polícia no Brasil. Mas, com a abordagem da polícia daqui me senti muito respeitado, tanto que eu cooperei sem qualquer problema, mesmo porque, se algum terrorista de verdade estivesse passando por ali com uma mochila cheia de bombas, não seria muito agradável que a polícia não o tivesse impedido de entrar.
Caminhei, explorei o recinto, interessei-me por um chapéu, e na hora do almoço adentrei um barracão. Apesar do barracão ser gigantesco, muito andei mas não consegui encontrar um lugar livre sequer. Então procurei outro barracão, e nesse, com muito custo, consegui ficar com o lugar de um grupo que acabara de sair. Mal sentei, e três caras vieram também, perguntando se tinha lugar na mesa. Ora, se alguém faz questão de sossego, desaperto e tranquilidade, não deveria ir à Oktoberfest em primeiro lugar. Logo após os três caras, vieram outros dois e um casal. Assim, quase que instantaneamente, a mesa que acabara de esvaziar, e ainda com os copos e pratos vazios dos que saíram, já estava novamente completa.

As belas "camponesas" da oktoberfest em seus trajes típicos. (Nunca é demais reiterar que minha mulher é muitoooo mais bonita que todas elas juntas.)
E, de tempos em tempos, tocava a banda “Ein Prosit, Ein Prosit, der Gemütlichkeit!”, conclamando as pessoas a fazerem um brinde ao conforto! E todo mundo brindava. De tempos em tempos, algum maluco ficava de pé na cadeira e tentava virar o litrão (refiro-me à caneca de chopp, que contém, para ser preciso, 0,9 litro – um pouco a menos que o padrão de Nuremberg, que é exatamente 1 litro) de uma só vez. Quando isso acontecia, todas as atenções se voltavam ao “desafiante”, tal qual um jogador de futebol prestes a fazer uma cobrança de pênalti. E, quando o cara não consegue, é vaiado com veemência, e não sem justiça. Afinal, quis dar uma de bom sem ser bom o suficiente. Nenhum cara conseguiu, mas uma menina, baixinha, que ninguém botaria fé, conseguiu… duas vezes! Vergonhoso isso para nosso gênero, mas fomos humilhados por uma baixinha… e, por seus méritos, recebeu o reconhecimento de todos das mesas próximas, com animadíssimos aplausos.
Pois bem, previamente mencionei as pessoas que estavam na mesma mesa que eu. Os três primeiros eram húngaros. Somente um deles fala alemão (nenhum deles falava inglês). Os outros dois, só húngaro. Esse que falava alemão era bastante conversador, e eu não me canso de me felicitar por ter finalmente aprendido a falar alemão. Não que eu fale bem, isso é uma outra história. De cada 10 frases que eu falo, 11 tem algum erro, seja de concordância, preposição, declinação, gênero, etc. Mas, a mera capacidade de entender e me fazer entender faz muita diferença por aqui… obviamente, pois trata-se da língua do país. Vejo quanto eu perdi, em minha estadia em Lüneburg, por não conseguir me comunicar direito. Teria sido muito mais proveitoso aquele ano, com toda certeza.
Pois bem, além dos húngaros, tinham dois americanos. Um deles falava só inglês, o outro falava inglês e espanhol e, ao descobrir que eu era brasileiro, começou a falar espanhol. Não sei por que raios os estrangeiros pensam que falamos espanhol… bem, o húngaro também não escondeu sua ignorância quando perguntou: “qual idioma se fala no Brasil? Espanhol?” Ok, mas os caras eram gente boa, então pacientemente expliquei-lhes que no Brasil se fala português. Mas tive que explicar duas vezes: o húngaro não falava inglês, e o americano não falava alemão.
Apesar disso, o húngaro e o americano também tentavam se comunicar, sem sucesso. Eu apenas rachava o bico da comédia que se passava ali na minha frente (sem, é claro, evidenciar para não ofender os caras…). O casal era alemão, mas falavam também inglês. Eles nos explicaram que a planta que enfeitava os pilares do barracão era o lúpulo. Não é de hoje que tenho vontade de ter um sítio e plantar lúpulo. As vezes penso que eu deveria ser agricultor, mas me disperso.
Terminei minha cerveja por volta de 2h da tarde, e naquele dia ficaria só na primeira mesmo. Ademais, a cerveja da Oktoberfest é uma cerveja especial, preparada especialmente para o evento, e que contém uma porcentagem alcoólica maior. Não queria voltar tarde, e dali andei um pouquinho para o recinto e logo ja estava de volta à estação, aguardando o trem das 15h06. Que, estava tão lotado quanto o trem da manhã, seguindo a mais universal das determinações da física: tudo o que vai, volta.
Pedido de adesão à ONU da Palestina: uma jogada política?
“O Brasil já reconhece o Estado Palestino como tal, nas fronteiras de 1967, de forma consistente com as resoluções das Nações Unidas. Assim como a maioria dos países nessa Assembleia, acreditamos que é chegado o momento de termos a Palestina aqui representada a pleno título.” Dilma Rousseff.
Isso foi dito no discurso de abertura da última assembléia geral da ONU, no dia 21/09/2011. Parece não haver quem atualmente, com um mínimo de senso e imparcialidade, seja contrário à idéia do Estado Palestino. Ora, somente dois países se opuseram na assembléia: EUA e Israel. Se o porquê não lhe é óbvio, lamento meu amigo, mas você é um alienado. Sugiro que faça novamente o colegial, em especial geografia e história.
O triste é que os EUA podem, e já avisaram que irão vetar a iniciativa. Mas a idéia desse artigo não é lamentar, e sim analisar o que levou o presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina), Mahmoud Abbas, a tomar a iniciativa de submeter o pedido de adesão à ONU, mesmo sabendo que não tinha nenhuma chance de ser aprovada.
Em primeiro lugar, a entidade política mais impactada por essa decisão de Abbas parece ter sido o Hammas. Ora, ao submeter o pedido e gerar todo o debate (mesmo que não tenha chance de ser aprovado), o Fatah ganha reconhecimento internacional como legítimo representante da ainda não nascida Palestina, em detrimento do Hammas.
Em segundo lugar, demonstra ao mundo que o Fatah é que está lutando pela causa palestina de maneira moderada, seguindo as regras do jogo diplomático ocidental. Ao ocupar essa posição, nega-a ao Hammas.
Assim, o Fatah já se prepara para garantir, na eventualidade da criação de um Estado Palestino, o governo desse. Foi, portanto, uma jogada de mestre, e me é difícil imaginar uma possível reação eficaz do Hammas, para evitar ou minimizar a catástrofe política. Parece simplesmente que essa decisão decretou o fim político do Hammas, atacando-o justamente onde era mais fraco: no reconhecimento internacional.
Por outro lado, a decisão tem também consequências importantes fora da Palestina. Ao buscar a independência de maneira moderada, como gostam os ocidentais, o Fatah garantiu apoio político e popular de quase todas as nações do mundo, exceto aquelas diretamente interessadas na manutenção do status quo ou agravamento das ocupações israelenses. Na verdade, a apenas um país interessa realmente que o pedido de adesão seja negado: a Israel. Para os legítimos interesses dos EUA e do povo norte-americano, não há qualquer motivo para vetar o pedido, pelo contrário, eles perdem politicamente, economicamente, diplomaticamente, comercialmente, sofrem danos seríssimos à reputação, enfim, Israel é um aliado que só dá despesas para o EUA e não o ajuda em nada. Mas, ainda assim, os EUA insistem em apoiar Israel, contrariando seus próprios interesses. Ainda está para nascer um presidente americano que tenha peito (não, não me refiro a uma presidente mulher heheh) para questionar essa relação com Israel, mas creio que vai demorar muito. Até lá, o governo americano vai continuar escolhendo ajudar Israel economicamente e militarmente, mesmo que para isso tenha que cortar gastos do governo com educação, saúde, infra-estrutura ou o que quer que seja. O porquê disso é uma longa história, e já digredi demais, portanto voltemos ao assunto.
Abbas, ao submeter o pedido, trouxe à tona a questão do Estado Palestino, porém agora com a ótica de que muitos países já reconheceram tal estado, e a grande maioria deles os apóiam. E, mesmo que EUA e Israel consigam facilmente vetar a iniciativa, terão um custo em reputação a pagar. Ja não mais falam pelo mundo; nadam agora contra a corrente, e quanto mais insistem, apenas aumentam o dano político que sofrem. O apoio internacional à Palestina aumentará ainda mais, particularmente na Europa, onde alguns países – inclusive no próprio conselho de segurança – anteriormente simpáticos a Israel, podem passar a reconhecer o Estado Palestino a apoiá-los na ONU.
Essas são as consequências desse pedido que já nasceu morto. E devo parabenizar o Fatah pela visão estratégica que demonstrou. Atuou com muita inteligência. Um ataque político desses causa danos muito piores aos inimigos do que mil homens-bomba ou oitenta Osamas Bin-Ladens, com a vantagem de trazer vantagens reais para ajudar na luta por sua causa. O mundo de hoje já não vê com romantismo a luta por uma causa ou a simples resistência através da violência e da força. Atualmente, mais sucesso tem tido quem luta através das palavras e fazendo-se de bom moço e coitadinho.
Como já preconizava nosso saudoso Darwin, sobrevive quem está adaptado às condições atuais. E o Fatah mostrou exatamente isso, em relação ao Hammas.
Diferenças culturais: trabalho, produtividade e qualidade de vida
Como engenheiro, tive a oportunidade de conhecer alguns diferentes ambientes de trabalho, pautados sobre diferentes culturas e economias. Então, pensando sobre o assunto, pesquisei alguns dados e veja como você, brasileiro (o que infelizmente me inclui no grupo por definição), é pobre, e por quê.
Mas antes dos dados, deixe-me expor como funcionam algumas diferentes mentalidades.
A realidade de trabalho alemã é, para um brasileiro, algo paradisíaco. Normalmente um alemão trabalha 7 horas por dia, com flexibilidade de horário. Se ele não se sente bem ou produtivo em um determinado dia, ele simplesmente vai embora pra casa, sem que seu patrão olhe torto pra ele. Eles entendem que não somos máquinas e, naqueles dias que não estamos bem, melhor ir para casa descansar ou espairecer, do que ficar no trabalho entrando no orkut ou lendo blogs, gastando internet e energia da empresa até dar a hora de ir embora. Alemães têm 30 dias ÚTEIS de férias por ano, o que significa 6 semanas, que eles podem dispor ao longo do ano da maneira que quiserem. Ninguém precisa ficar de malandragem, correndo atrás de atestado fajuto pra conseguir alguns dias pra resolver problemas por que, via de regra, se você tem problemas pessoas e precisa de alguns dias, você simplesmente conversa com seu patrão e ele lhe dá os dias, e nem se preocupa em descontar. Essa coisa de bater ponto não é muito popular por aqui. Importa mais que você seja responsável por suas atividades e cuide daquilo que é sua responsabilidade.
Se Alemanha é um paraíso, o Brasil é o inferno. Empresas brasileiras adoram burocracia. Adoram ferrar a vida do peão. Brasileiro trabalha 9 horas por dia, isso quando pouco, pois não é incomum quem faça hora extra de boa vontade, sem ganhar nada mais por isso (na verdade, boa vontade coisa nenhuma. O cara se sujeita a uma palhaçada dessas por ter contas para pagar, e não ter trabalho melhor no momento). Sim, meu amigo. Não são raras as empresas que exigem horas extras e não pagam. Mas, mesmo nas que pagam, como brasileiro ganha pouco e geralmente está endividado, quando tem a oportunidade de trabalhar em uma empresa que paga as horas extras certinho, além daquelas 9 horas diárias que já são muitas, o camarada até gosta de fazer hora extra. Empresas brasileiras geralmente (veja que emprego o termo geralmente, o que significa existem aquelas que fogem à regra) são burocráticas e, via de regra, um empregado não pode ter problemas pessoais. Precisar ir num psicólogo, por exemplo, é meio que visto ou como coisa de viado ou como o sujeito tem problemas mentais, então realmente se você tem problemas como depressão, stress, fadiga, etc. e trabalha em uma típica empresa brasileira, geralmente não é uma boa idéia conversar com seu chefe a respeito por que ou a) você não vai ganhar os dias ou b) você vai ganhar os dias mas esses serão descontados e você vai ficar com fama de boiola ou débil mental ou c) seu patrão vai te mandar embora na próxima oportunidade e contratar alguém que não tenha problemas pessoais.
Mas problemas pessoais todo mundo tem, e quando o patrão escolhe o brasileiro típico, que aparentemente não tem problemas, na verdade ele está escolhendo um que vai inventar um jeito de tirar seus dias sem ter que passar pelos inconvenientes acima. Brasileiro se preocupa muito com aparência. Não é de se espantar que brasileiros desenvolvam uma certa malícia e malandragem. Desde pequenos, os brasileiros crescem nesse ambiente fechado. A própria escola e a família parece se importar mais em adaptar desde pequenas as crianças a esse ambiente de trabalho. E também os pais, cobrando as lições de casa que são como as “horas extras” das crianças. Não é de se espantar que os brasileirinhos aprendam cedo trambicagens como pegar atestados daquele amigo médico da família, copiar lições de casa, etc.
Eu tive a sorte de pertencer a uma família não tipicamente brasileira. Se eu não estava a fim de fazer a lição de casa, meus pais não me batiam por causa disso. Se eu estivesse um dia com muita vontade de faltar, meus pais consentiam sem nenhum problema. Eles não controlavam minhas lições de casa, e nem os trabalhos da escola. Eles sabiam que, como de costume, o boletim viria com notas boas. Se ocorressem problemas no boletim, ai sim eles viriam tirar satisfações, mas isso nunca foi necessário. Aliás, o próprio boletim eu não era obrigado a apresentar para eles. Eu mesmo é que mostrava por iniciativa própria, como um meio de me gabar das notas altas. Eles tinham uma idéia geral de meu desempenho. Por isso, eu acabei não desenvolvendo também a típica malandragem brasileira. Mas nem por isso deixei de me formar, nem por isso deixei de virar gente, nem por isso deixei de ser responsável no trabalho. Aliás, estudei, coisa que muitos de meus amigos infelizmente não fizeram, alguns por preguiça, outros pela necessidade de trabalhar desde pequenos para ajudar em casa, mas culpados ou não, condenaram-se à pobreza eterna.
Agora, com relação aos alemães e europeus ocidentais, de um modo geral: eles alcançaram esse nível facilmente, ou ao acaso? Por que será que, mesmo em crise, os caras trabalham com muito menos medo de perder o emprego do que brasileiro em época de inédita prosperidade?
Sem mais delongas dados que havia prometido:
De acordo com a Organização Mundial do Trabalho, dados de 2008, vejamos quanto custava, em média, as horas trabalhadas em alguns países que escolhi como representativos de diferentes maneiras de se encarar a vida, em especial, o trabalho. Escolhi esses países, também por que já trabalhei em alguma empresa desses países. Os dados mostram também quanto ganhava o empregado (o que o patrão paga não é o mesmo que o empregado recebe). Valores em dólares.
Brasil: 8,28 /5,62
Coréia do Sul: 16,27 / 13,38
Estados Unidos: 32,26 / 24,77
Alemanha: 48,22 / 37,67
A primeira coisa que salta aos olhos é a enorme ineficiência brasileira, pois o que o patrão gasta com o empregado é quase o dobro do que ele efetivamente recebe. Isso por conta de imposto, etc, etc. Mas, mesmo que não tivesse imposto e outros gastos trabalhistas não-salariais, o valor de nossa hora trabalhada é lastimável. Aqui parece evidente que a falta de qualificação é um dos principais fatores de nossa pobreza.
A segunda coisa é que o brasileiro ganha pouco. Brasileiro é terrivelmente pobre. Assim, o brasileiro acaba trabalhando muitas horas a mais, e mesmo assim sua renda ainda fica menor.
Mas, como será a produtividade? Vejamos. De acordo com dados da Organização Mundial do Trabalho, a renda gerada por hora trabalhada, para os quatro países supracitados, em 2008, em dólares (observação: dólares de 1990, o que pode distorcer o valor com relação à tabela anterior. Não me culpe, os dados vieram desse jeito! Obviamente, a produtividade do empregado tem que ser, em valor real, no fim das contas, maior que o gasto médio do patrão por empregado, caso contrário, alguma coisa estaria extremamente errada na economia):
Brasil: 7,19
Coréia do Sul: 18,5
Estados Unidos: 36,88
Alemanha: 29,74
Não é de hoje que os EUA são os campeões em produtividade. A Coréia, bem como os demais tigres asiáticos, têm mostrado uma tendência expressiva de crescimento nesse índice nas últimas décadas, enquanto o Brasil permanece estagnado. Isso por falta de investimento real em educação e tecnologia. Mão de obra pouco qualificada é menos produtiva não porque tem um output menor, mas por que o produto do trabalho tem um menor valor agregado.
O brasileiro, então, além da carga maior de trabalho (o que dificulta que ele invista na própria educação), sofre com a péssima qualidade das universidades particulares (que detém a maior parte das vagas) e o total descaso do governo com a educação básica. As escolas públicas atualmente têm formado um exército de analfabetos funcionais para o mercado de trabalho, infelizes que terão que se matar de trabalhar para ganhar uma miséria. E não é de se estranhar que um desses analfabetos funcionais, cuja família entrou para a famigerada “nova classe média”, ao sair da colégio estadual vai fazer sua faculdade, dando origem a músicas como essa, que descrevem bem o que aprendem os futuros profissionais de nosso país. Isso os que não tiverem a sorte de receber bolsa-alguma-coisa, que decreta de vez a morte educacional do indivíduo em questão, retirando-lhe todo incentivo para estudar ou aperfeiçoar seu currículo. Pelo contrário, dá apenas incentivo ao sujeito para fazer mais filhos. Não acredita em milagres? Então venha para o Brasil, e presencie com seus próprios olhos o milagre da multiplicação da ignorância!
A Coréia do Sul era colônia do Japão até o fim da Segunda Guerra Mundial. O país saiu da guerra, obviamente, caótico. Mas não demorou muito e veio outra guerra, que na verdade ainda não terminou. Mas, antes do cessar-fogo, ela trouxe mais caos. Mesmo com essa necessidade de constante vigilância, com pouquíssimo território e recursos naturais, a Coréia do Sul, tão logo teve um pouquinho de paz, priorizou a educação e a ciência. Demorou algumas décadas, mas eles começaram a colher os frutos. O país, junto com outros asiáticos que seguiram a mesma estratégia, alcançou um sucesso econômico invejável.
Algo similar aconteceu com a Europa, mas eles já tinham, antes mesmo da guerra (e talvez até incentivada por essa), uma cultura de investimento em educação e ciência. Tanto que ressurgiram de suas ruínas quase que naturalmente. Os EUA, até algumas décadas atrás, tinham também isso. Nas últimas décadas é que eles parecem ter abandonado, já que não tem mais União Soviética pra incentivá-los à pesquisa, e temos visto o começo de seu declínio e uma forte tendência ao desprezo à educação. Já se pode notar que, geração após geração, o estadunidense está cada vez mais idiota. Mas ainda estão anos-luz a nossa frente, ainda são os campeões, my friend, e vai demorar algumas décadas para os asiáticos os ultrapassarem.
E Brasil, que não tem guerra, não tem desastres naturais, tem território e abundância de recursos, mesmo assim se atrapalha sozinho! O governo brasileiro faz de tudo, mexe na economia, investe na infra-estrutura, traz copa do mundo para o país, etc. Mas não demonstra o mínimo interesse em melhorar a educação e a produção científica. Se sequer estamos caminhando na direção correta, como esperamos um dia alcançar as nações desenvolvidas?
O Brasil pode ter sido privilegiado pela natureza, mas nós temos uma condição que é muito mais destrutiva do que qualquer desastre dos países desenvolvidos, seja terremoto, guerra, falta de recurso. Aqui, muito mais estrago do que todas essas coisas, faz a ignorância.
Legalize?
É o assunto do momento, desde intelectuais do nível de THC, digo, FHC, até um Zé Ruela qualquer do bar da esquina. “Será que vai legalizar?”, pergunta-se tanto o rasta quanto o pastor evangélico, cada um torcendo para um desfecho não apenas diferente, mas contrário. E a polêmica é acirrada: o reacionário realmente enxerga o apocalipse na legalização, enquanto o radical liberal prega utopias como o quase fim da violência e a prosperidade econômica. Por isso, ambos os lados se apegam a seus pontos de vista muito fortemente.
Adicione-se a notória falta de cultura de nosso povo a esse caldeirão, e temos um verdadeiro criadouro de falácias, preconceitos e imbecilidade. Gente inventando mitos de ambos os lados, gente palpitando sem ter a mínima idéia do que está dizendo, gente fazendo apelos ao sentimentalismo, enfim, uma autêntica briga de foices no escuro da ignorância brasileira. Para fugir a esta regra, utilizei-me de artigos científicos de fontes confiáveis (wikipédia, artigo jornalístico, juízo de valor de fulano, etc não serve), fontes que são sempre apontadas por links, e se não for de credibilidade suficiente, reclame para o escritor do artigo e não para mim, ou escreva uma refutação nos moldes do método científico, submeta ela a revisão por pares e publique-a. Isso para munir-me de dados e informações da maneira mais segura e imparcial possível (seria altamente questionável utilizar artigos de fontes que assumem uma posição contra ou a favor). Além disso, utilizei-me da razão, para discernir o que é besteira e o que faz sentido, e de minha alfabetização para escrever meus argumentos.
Estamos discutindo aqui legalização. Nessa discussão, emprego o termo legalização com o sentido que vem sendo mais usado atualmente: o sentido da ausência de proibição de fumar maconha. Esta discussão envolve, é óbvio, a legislação. Ou seja, no fim das contas, podemos discutir a vontade, que quem vai mudar ou manter a lei será o poder legislativo daquele jeito que já conhecemos bem, dinheiro pra cá, dinheiro pra lá, os interesses econômicos, os lobbies, os interesses religiosos, enquanto alguns ingênuos sonhadores se orgulham de ver a máquina da democracia funcionar (Eu me pergunto se quem votou no Tiririca tem a mais remota idéia de que ele participa da decisão desses e doutros assuntos importantes do nosso país, mas me disperso).
Legislação remete a leis, que remetem à idéia de contrato social, ou seja, a lei a que todos nós nos submetemos, restringindo nossa liberdade individual, pelo bem da comunidade, faço questão de grifar; pois, de cara, se uma lei não protege, enriquece, estimula, desenvolve ou dá qualquer vantagem para a comunidade, ela zomba do sacrifício de nossa liberdade individual, fazendo-se inútil ou prejudicial. Uma restrição a que se submete em troca de nada é um contrato desvantajoso, ao qual não queremos nos submeter.
Temos um status quo de proibição. Portanto, cabe a quem defende a legalização contestá-lo, mostrando que ou a proibição é inócua (não traz benefício coletivo compatível com a liberdade individual que restringe) ou que a legalização traria um benefício coletivo igual ou maior que a proibição, sem a restrição à liberdade individual, o que evidenciaria a utilidade de uma mudança na legislação. Não é possível, portanto, argumentar levando em consideração apenas a esfera individual, na qual é óbvia, do ponto de vista legal, a superioridade da proposta da legalização, uma vez que concede um direito sem nada exigir em troca, sem exigir que quem não goste consuma. Há que se considerar também a esfera coletiva – é nessa esfera que mediremos as consequências da liberação na sociedade, que serão, no fim das contas, o fiel da balança.
E nota-se que a questão não é simples. Há muito o que se considerar.

Um indivíduo que fuma maconha prejudica sua própria saúde. Ao fazer isso, ele se torna um ônus que a sociedade tem que suportar. É razoável supor que, legalizado, o consumo irá aumentar, aumentando o número de doentes e viciados, ônus que tem que ser suportado por toda a sociedade. A proibição, nesse ponto, nos protege dessa desvantagem.
Porém, é difícil evitar aqui uma comparação com outras substâncias. De acordo com esse artigo publicado na Revista da Associação Médica Brasileira, “um em dez daqueles que usaram maconha na vida se tornam dependentes em algum momento do seu período de quatro a cinco anos de consumo pesado. Este risco é mais comparável ao de dependência de álcool (15%) do que de outras drogas (tabaco é de 32% e opióides é de 23%) ”. (Abuso e dependência da Maconha. Marcelo Ribeiro; Ana Cecília Petta Roselli Marques; Ronaldo Laranjeira; Hamer Nastasy Palhares Alves; Marcelo Ribeiro de Araújo; Danilo Antônio Baltieri; Wanderley Marques Bernardo; Castro Lagp; Isac Germano Karniol; Florence Kerr-Corrêa; Sérgio Nicastri; Moacyr Roberto Cuce Nobre; Reynaldo Ayer de Oliveira; Marcos Romano; Sérgio Dario Seibel; Cláudio Jerônimo da Silva). Esse artigo é um artigo que mostra os efeitos da maconha, do ponto de vista de um médico orientando um dependente. Ele evidencia os males à saúde que o consumo de maconha causa, os quais são integralmente reconhecidos por esse artigo. Porém, como se pode ver, o tabaco é mais de três vezes mais “viciante” que a maconha. Um maconheiro dificilmente fuma um “maço” de maconha por dia, coisa tão normal com o fumante de tabaco, o que, junto com o maior vício e dificuldade de parar, lhe garante um caminho mais curto e mais seguro para o câncer de pulmão. Com relação ao álcool, vemos que esse também é mais viciante, e garantirá ao alcoólatra uma morte sofrida à medida que degenera gradualmente seu fígado e destrói sua vida social e familiar, isso quando não lhe leva a uma situação de tragédia em uma briga de bar ou na própria casa, com a predisposição à violência que dá, quando abusado. Ser dependente de qualquer coisa é inquestionavelmente uma idiotice, mas fica claro que a dependência de maconha, entre esses três vícios citados, é a menos prejudicial tanto a nível individual quanto social.

Segundo Bob, "O homem quando bebe álcool, afia uma faca e mata. Mas quando fuma erva ele afia uma faca e diz: Deixa, a vida mostrará a ele."
Por mais que se argumente que a comparação com o álcool e o tabaco é inócua por que um erro não justifica outro, eu poderia citar inúmeros exemplos de coisas que fazem mal e não são proibidas. Começaria pelos agrotóxicos, incluiria o café, passaria pelo jogo de azar, pelos refrigerantes, pelos hambúrgueres gordurosos, pelo sedentarismo, sexo sem camisinha, ficar muito tempo no computador, ficar muito tempo trabalhando… Tudo isso são coisas que nenhum médico recomenda. Ou, pelo menos, não recomenda o abuso. Ainda assim, nada disso é proibido. O que faz bem e o que faz mal, afinal de contas? As coisas por si, ou o abuso das coisas? E, quem decide até que ponto um indivíduo pode causar dano a si mesmo? Se a lei tolera que um indivíduo torne-se um alcoólatra e dê um ônus à toda sociedade no cuidado de sua saúde, ou mesmo que ele faça sexo sem camisinha, colocando-se em risco de contrair AIDS e utilizar dos coquetéis que são dados pelo governo e custeados por toda a sociedade, ela se contradiz, vai contra seu próprio espírito ao negar essa tolerância a tudo o que seja menos prejudicial do que o álcool. Qual é o espírito de nossas leis? Proteger a sociedade contra os viciados, ou proteger os viciados contra a sociedade?
Ora, não há como não questionar o fato de que tabaco e álcool, que são mais prejudiciais, são legalizados – o que eu não critico. Mas qual é o critério dos legisladores? Obviamente não é o critério do dano à saúde, pois se assim fosse, estariam todos proibidos. Não é inválido o questionamento: quem, afinal de contas, tem mais competência para gerir a própria saúde? O próprio indivíduo, em um modelo liberal que respeita as peculiaridades de cada um e limita o papel do estado a tratar os desequilibrados, a custo de ônus para a sociedade, ou o estado, padronizando o que se pode e o que não se pode consumir e evitando (teoricamente) problemas antes que eles aconteçam, a custo da restrição da liberdade individual? Mostra-se uma resposta razoável analisar caso a caso, comparando se o dano social compensa a liberdade individual. Quando compensar, proíbe-se; quando não, libera-se. O problema é que, segundo esse critério, ou a maconha, que causa menos dano social que os liberados álcool e tabaco, está equivocadamente proibida, ou álcool e tabaco estão equivocadamente legalizados.
Lembro-me que estava lendo, em um dos muitos blogs sobre direito que lia na época que estudava para concursos, a respeito de um questionamento sobre a constitucionalidade da proibição da maconha, na mais alta corte alemã. Esse argumento (do parágrafo anterior) foi levantado lá, porém a corte decidiu que não era válida a comparação. Um dos argumentos da corte era de que o álcool tinha o fator cultural, estando na cultura alemã desde sempre, e que por isso, ainda que fizesse mal à saúde, não era desejável sua proibição. Lógico, havia muitos outros argumentos, e estou expondo aqui de maneira extremamente simplista, mas esse parece ter nascido com o defeito de não ter se perguntado: e quanto às culturas que têm como elemento a maconha? Apenas para citar uma muito conhecida, a cultura Rastafári. Um país democrático não pode privilegiar uma cultura em detrimento de outra. Não sei não, mas me parece que a corte alemã reafirmou, nesse caso, ainda que muito sutilmente, a superioridade da cultura branca ocidental.
Mas, ainda com relação ao álcool e ao tabaco, uma análise não muito profunda evidencia que os argumentos em favor de sua legalização não são relativos à saúde e muito menos culturais. Os males que eles causam à saúde geral da população são compesados pela arrecadação de impostos, pelos empregos que geram e por toda cadeia produtiva que essas indústrias alimentam. Ademais, se fossem proibidos, não apenas essa indústria legal acabaria, como o crime aumentaria junto com a indústria ilegal que tomaria o lugar, e que impediria um ganho expressivo na saúde da população. E, o que antes era trabalho formal, passará a ser trabalho informal – pior, trabalho a serviço do crime. Há na história um exemplo bem conhecido desse mecanismo: a experiência da lei seca nos Estados Unidos, cujos resultados foram ridículos, como mostra esse estudo publicado pelo Departamento de Economia de Harvard. Aprenda inglês!
“These results suggest that Prohibition had a substantial short-term effect but roughly a zero longer-term effect on drunkenness arrests. Perhaps most strikingly, the implied behavior of alcohol consumption is similar to that implied by cirrhosis. Dills and Miron (2004) find that Prohibition reduced cirrhosis by roughly 10-20%.” (The Effect of Alcohol Prohibition on Alcohol Consumption: Evidence from Drunkenness Arrests. Jeffrey A. Miron, Angela K. Dills, Mireille Jacobson).
Ou seja: a proibição do álcool diminuiu os casos de cirrose entre 10% e 20%. As prisões por embriaguez caíram substancialmente no curto prazo, mas no longo prazo o efeito da proibição foi quase nulo. Em troca, criou problemas antes inexistentes (já ouviste falar de Al Capone? Não teria ouvido, se os americanos não tivessem tido a brilhante idéia de proibir as bebidas alcoólicas) e acabou-se, por fim, desistindo da proibição.
Não é preciso ter uma mente privilegiada para perceber que a proibição da maconha tem consequências similares à lei seca, porém em menor escala, já que o consumo de maconha é muito menor que o consumo de álcool. Muita gente papagaia que os resultados holandeses foram um desastre, outros papagaiam que foi um sucesso. Defensores da legalização afirmam que lá diminuiu o número de usuários de drogas mais pesadas, enquanto defensores da proibição afirmam que aumentou o número de usuários de maconha. Mas afirmações sem base não valem de nada. O que se pode dizer sobre sobre os custos sociais da liberação? Vou supor que as afirmações sem base até dos conservadores mais alarmistas, que chegaram a afirmar (sem base) que o consumo de maconha aumentou 400% na Holanda, seja verdade. Segundo Jeffrey A. Miron (o mesmo do artigo anterior, mas agora em outro artigo, e o pesquisador é bem imparcial, voltado realmente a juízo de fato e não juízo de valor), em seu artigo “The Budgetary Implications of Drug Prohibition“, o custo da proibição, nos EUA (vale lembrar que em nenhum estado a maconha foi legalizada; alguns estados legalizaram o uso medicinal apenas), pode ser estimado conforme os números abaixo:
“The report estimates that legalizing drugs would save roughly $48.7 billion per year in government expenditure on enforcement of prohibition. $33.1 billion of this savings would accrue to state and local governments, while $15.6 billion would accrue to the federal government. Approximately $13.7 billion of the savings would results from legalization of marijuana, $22.3 billion from legalization of cocaine and heroin, and $12.8 from legalization of other drugs.
The report also estimates that drug legalization would yield tax revenue of $34.3 billion annually, assuming legal drugs are taxed at rates comparable to those on alcohol and tobacco. Approximately $6.4 billion of this revenue would result from legalization of marijuana, $23.9 billion from legalization of cocaine and heroin, and $4.0 billion from legalization of other drugs.“
O artigo é bem atual, de fevereiro de 2010. Ou seja: os EUA gastam diretamente (estimativa) na repressão à maconha, 13,7 bilhões de dólares anuais. Além disso, os EUA deixam de arrecadar 6,4 bilhões de dólares anuais em impostos diretos. (As outras drogas não estão em discussão aqui.) Depois de quase um século com gastos desse naipe, com toda a máquina estatal tentando eliminar a maconha, com toda propaganda para o resto do mundo fazer o mesmo, qual foi o resultado? A maconha continua extremamente popular por lá! Isso deixa claro o quanto é ridícula, inócua, ineficaz e irracional a política de repressão, e eu se fosse europeu, sentiria pena deles e me orgulharia da superioridade das políticas de meu continente. Infelizmente, meu país copia as sandices dessa desgraça desde sempre - geralmente, se agarra às piores delas com mais determinação -como bom quintal que é, na expressão mais lastimável de seu complexo de inferioridade. Vale lembrar que nos EUA, o gasto com saúde advindo de uma legalização da maconha seria zero, pois lá não existe assistência médica gratuíta bancada pelo governo. Além disso, o artigo desconsidera outros benefícios não econômicos ou econômicos indiretos, como por exemplo, os recursos humanos policiais que poderiam estar sendo usados para coisas mais importantes, como combate à corrupção, prostituição infantial, etc, os empregos e renda indireta que poderiam ser gerados pela existência de uma indústria legal de maconha, a diminuição do custo social de pessoas presas, superlotando as cadeias e sobrecarregando o judiciário, na maioria das vezes inofensivas, muitas vezes produtivas (maconheiro, ao contrário de usuário de crack, geralmente é inofensivo, pois a maconha não tem a característica da fissura, que é o que leva a pessoa a cometer delitos a fim de satisfazer o vício), etc.
Mas, estava falando da Holanda. Eu infelizmente não consegui encontrar números confiáveis sobre o resultado da política deles. Só que basta pensar um pouco: certamente aumentou o gasto público com o tratamento de viciados, pois é razoável supor que o consumo tenha aumentado (embora não vi nem o mais árduo defensor da proibição afirmar que o consumo de drogas pesadas não tenha diminuído). Supondo que seja verdade que o consumo aumentou 400% (apenas considerando a maconha, ignorando eventuais efeitos sobre o consumo de drogas pesadas (que, a priori, não encontrei números publicados em artigos científicos; se alguém puder compartilhar, agradeceria), e ainda tendo em conta que esse é um número exagerado e provavelmente distante da realidade). Se a maconha causa dependência em apenas 10% dos usuários frequentes, conforme estudo mencionado anteriormente, e há de se convir (a própria dificuldade em encontrar relatos corrobora essa afirmação, dificuldade que inexiste em relação à cocaína e outras drogas) que casos de overdose de maconha, se não inexistentes, são raríssimos, quanto será que aumentou o gasto deles? E quanto desse consumo não provém de turistas estrangeiros? Será que, ainda que sem números confiáveis disponíveis, não é razoável supor que os ganhos da liberação muito de longe ultrapassam as perdas? E os ganhos com turismo? E a renda gerada, tal como expôs o Dr. Jeffrey, ajustada à realidade econômica holandesa?
Dizem os proibicionistas que o turismo, nesse caso, é ruim. Ora, turista é tudo igual. Não importa se o que o levou a visitar determinado país foi um motivo nobre ou não (assunto subjetivo, aliás, o que é um motivo nobre). O turista entra em um país, consome serviços de hotelaria, transporte, alimentação, gasta dinheiro no país (que, sem exceções, ele tem, por que pobre não tem dinheiro para fazer turismo internacional), gera um pouquinho de sujeira e vai embora. Isso é turismo, e turismo significa fluxo de dinheiro estrangeiro de fora para dentro do país. Suponhamos que o Brasil fizesse o mesmo que a Holanda. Criar-se-ia por aqui o tal do “turismo da maconha”, em que argentinos, americanos, etc, que hoje vão para a Holanda, viriam para cá. Isso significaria que teríamos um mercado turístico oligopolista (com a Holanda sendo a única concorrente), com tudo o que o turismo tem de bom e de ruim, como qualquer outra atração turística. Ainda assim, acho que não iria demorar até alguns outros países vizinhos legalizarem também, caso o Brasil legalizasse, e o oligopólio não duraria muito tempo. Infelizmente, creio que, na América do Sul, provavelmente será a Argentina o primeiro a legalizar. Eles são usualmente os mais moderninhos da nossa vizinhança, pelo menos socialmente falando. Aliás, equivoco-me: no Peru é legalizado.
Ademais, a proibição impede a utilização do cânhamo como matéria prima, que tem se apresentado uma alternativa ecológica e rentável em outros países. Matéria prima para tecidos, papel, biocombustíveis, cosméticos, etc. E por que não dizer decorativa? Sempre tive vontade de ter um pé de cânhamo em meu quintal, mas a lei não permite. No século XIX ninguém tinha medo, assim como hoje, do cânhamo. Tanto que se fazia como chá, se utilizava para fazer cordas e velas nos navios (a própria marinha britânica era a maior consumidora) e outros tecidos. Mudou o século, e o que antes era algo corriqueiro como algodão, talvez pelo fato de ser utilizado recreativamente por negros e hispânicos nos EUA, passou a ser a maior ameaça à família branca norte-americana. O lobby do petróleo e do algodão, tradicionalmente poderosíssimos nos EUA, se alegraram muito com a eliminação do concorrente. Somente nas últimas décadas, e em poucos países, é que a utilização do cânhamo vem sendo retomada. Principalmente em países que não têm algodão e nem petróleo, como o Japão e a França, por exemplo. Também é conhecimento geral que tem aplicações medicinais, tanto que é utilizada pela medicina contemporânea (nos países onde não é proibida), mas seu uso medicinal é milenar, inclusive no ocidente.
Segundo o artigo “SUGESTÕES AO GOVERNO BRASILEIRO EM RELAÇÃO AO USO MÉDICO DE PREPARAÇÕES DE EXTRATOS DE MACONHA, AGONISTAS E ANTAGONISTAS DOS RECEPTORES CANABINÓIDES“, de João Carlos Dias, Marco Antonio Brasil, Marcos Pacheco de Toledo Ferraz e Miguel Chalub, publicado pela Associação Médica Brasileira,
“Na antiga Grécia, os médicos Dioscorides e Galeno referiram o uso medicinal do cânhamo, contudo não fazem menção à propriedades intoxicantes. As invasões árabes no século IX ao século XII introduziram o preparado de cannabis em todo o norte da África. Os médicos muçulmanos relataram mais usos medicinais da cannabis do que os dois gregos citados, recomendando o uso para uma grande gama de doenças tais como afecções do ouvido, flatulência e epilepsia. Sendo assim, sua farmacopéia do século XVII prescrevia hashishe para uma grande variedade de doenças e também mencionava euforia e letargia produzidas pela substância, sendo que no século XVIII o uso do hashishe foi permitido somente para uso médico. Em 1830 a cannnabis foi introduzida na Europa por médicos britânicos que observaram o uso médico no tratamento da hidrofobia, reumatismo, epilepsia e tétano e como analgésico eficiente. No começo do século XX com o advento de medicações especificas os preparados de cânhamo foram retirados da farmacopéia britânica.”
Dado o histórico do uso medicinal, os doutores prosseguem enumerando alguns dos possíveis usos terapêuticos na atualidade:
“A literatura tem apresentado trabalhos científicos relacionados ao uso terapêutico dos canabinóides no tratamento da náusea e do vômito em pacientes submetidos à quimioterapia e para aumentar o apetite em pacientes com AIDS, bem como na analgesia, no tratamento de transtornos espásticos, no tremor da Esclerose Múltipla e dos tiques da Síndrome de La Tourette. Há referencia ainda na literatura ao uso do THC para o tratamento da dor, glaucoma, epilepsia, insônia, ansiedade, depressão e asma. ”
Com relação à violência, é difícil dizer se iria aumentar ou diminuir, no caso de legalização. Para melhor ou para pior, acredito que o impacto na violência não seria tão grande. Não há dúvida que, se o tráfico continuaria existindo (cocaína e crack continuariam sendo extremamente lucrativos), seria um pouquinho pelo menos diminuído. Recursos policiais também seriam um pouco redirecionados para reprimir atividades mais violentas. O número de prisões por porte de entorpecentes diminuiria. Eu acredito que diminuiria um pouquinho. Talvez, nada perceptível. Mas, isso é um achômetro. Mesmo por que, não sou vidente, então o máximo que podemos fazer é pensar e avaliar hipóteses sobre o assunto. Opinião pessoal: não seria a solução para o problema do tráfico e da violência, como tentam vender alguns pró-legalização, mas também não seria o fim do mundo e a degradação das famílias, como apregoam alguns mais alarmistas. Mesmo porque está ai a Holanda para provar, sem números, que a vida continuou seguindo normalmente, com lei e ordem, após a legalização.
Pelo exposto, concluo que, se há desvantagens, há também vantagens na legalização. Mais vantagens que desvantagens.
E você, o que acha?
10.09.2011 – Nürnberger Volksfest
Era por volta de 16h40 quando cheguei em Luitpoldhalle. Local que, há 70 anos atrás, era usado para desfiles militares nazistas, hoje é um belo parque, muito tranquilo, onde crianças brincam, moças tomam sol, adolescentes fazem pique-nique, velhos lêem livros e casais apaixonados trocam beijos, risadas e carícias. Não consegui resistir à tentação de tirar os sapatos e deitar à sombra de uma árvore, e ali cochilei um pouco. O tempo estava ótimo, sol e calor (durante a semana fez chuva e frio quase todos os dias).
Levantei e adentrei o recinto da “Festa Nuremberguiana do Povo“, que fica do lado do tal parque. É uma espécie de parque de diversões, o que tornava o ambiente bastante familiar – não familiar no sentido de conhecido, mas familiar no sentido de que havia bastantes crianças acompanhadas dos pais. Encontrei um local, porém, que destoava do estilo família. Jovens e tiozões (e os meio-termo, como eu), vestidos invariavelmente de preto, muitos com cabelos compridos e acessórios como aquelas coleiras de pitbull e coisas do tipo. Ali uma banda estava tocando ensurdecedoramente um bom Heavy Metal! Resolvi instalar-me provisoriamente ali. Pedi uma cerveja – sim, daquelas canecas de 1 litro que são o padrão por aqui – botei o meu celular na mesa, para ver ele tocar (por que ouvir seria impossível), e redescobri o prazer de ouvir músicas como I Want Out, do Helloween, The Wicker Man do Iron Maiden e outras nesse estilo. Assim passei muito bem cerca de meia hora, até que o telefone tocou – digo, a luz do telefone me indicou que havia alguém ligando. Eram os colegas do trampo, que haviam chegado. E estavam lá no barracão do Heavy Metal também.
Ficamos ali no barracão do Heavy Metal até acabar o primeiro litrão, e depois fomos para o barracão do Oxenzelt. Lá, o ambiente era novamente família, mas com uma aura regional, algo que seria como o barracão da música sertaneja ai no Brasil. Uma banda tocava músicas típicas daqui (aqui não existe sertanejo mas eles têm um estilo equivalente, algo como o caipira ou raiz local). Tiazonas enlouquecidas e inebriadas subiam nas mesas para dançar, outras vendiam balões, outras mesas reuniam adolescentes que se divertiam jogando o celular de um coitado entre eles lá na canecona comunitária de cerveja deles e nós rachávamos o bico com as histórias de trampo da Índia, da Rússia e do Brasil.
Algumas músicas eu já conhecia, como Viva Colonia (essa é típica do carnaval de Colônia, o que equivaleria a alguém tocar uma música da Ivete Sangalo louvando a Bahia em uma festa de peão no interior de São Paulo; o pessoal gosta, se anima, mesmo a música não sendo o estilo do local). Tinha essa também, que é bastante popular e animada, é infantil mas os adultos também gostam, tem até coreografia que as tiazonas executavam com maestria. É a musiquinha do aviador. Sozinho em Amsterdã é bem legal também! Mas essa foi a melhor: a musiquinha da Elisabett. Uma canção típica franconiana, e hilária! Eu se fosse o cantor não conseguiria me manter sem dar risada enquanto cantasse. Infelizmente, se traduzir perde a graça. É uma música que pode se prolongar indefinidamente, apenas inventando rimas do tipo “O melhor pão é o alçapão”. É bobo e nada a ver, mas é engraçado. (OK, meu exemplo foi péssimo, a música tem rimas melhores).
É interessante vivenciar o jeito de se divertir de outra cultura. O que eu acho bacana aqui, é que as músicas são inocentes. Aqui as músicas não têm apelação sexual como o axé e o funk brasileiros, e nem abuso do clichê romântico como o sertanejão do interior. Como no Brasil, esse tipo de música de festa necessita do fator animação para ganhar popularidade, mas não apela. Ademais, eu tenho a teoria de que a cultura alemã é uma cultura orientada à cerveja. Acho que eles inventaram o idioma fortemente sob seus efeitos, as festas são engraçadas por que invariavelmente são regadas à cerveja (talvez fosse meio infantil e bobo, mas com um litrão desses na cabeça é realmente divertido). Enfim, a cerveja explica a cultura deles.
Quanto ao litrão, constatei que 1 é pouco, 2 é bom, 3 é demais. Não passei mal, mas acho que o 4º eu não aguentaria.
10.07.2011 – Minha SEGUNDA viagem aérea internacional
É bem verdade que eu andava meio desanimado de escrever sobre viagens. Porém, no dia marcado no post (10/07) estava eu novamente no velho mundo, sem internet, mas imaginando um futuro post, que deixei escrito, a lápis, em um caderno. Escritos esses que tinha iniciado em pleno vôo, e terminei somente já dentro do hotel.
Essa é uma viagem de trabalho. Não é como a outra (que, de certa forma, era de trabalho também, mas era diferente). Agora é uma viagem custeada pela empresa. Enfim, quis o destino que eu voltasse, ainda outra vez, para essa terra que tanto influenciou minha vida, há alguns anos atrás (esta aqui).
Hoje (06/09), ainda aqui na Alemanha, deu-me vontade de publicar esses rabiscos, da mesma forma que os deixei escritos no caderno. Sem mais delongas, inicia-se aqui mais uma série sobre VIAGENS.
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Caos aéreo no Brasil. Apesar da enorme antecedência que entrei na fila do detector de metais, e depois do passaporte, chegou a hora do vôo e ainda faltava muito para terminar. Ao pedido desesperado da mulher da Lufthansa, eu e mais alguns passageiros do vôo para Munique cortamos a fila e apressamo-nos, a fim de não atrasá-lo.
Um pouco antes disso, via minha família indo embora. Foi um momento triste. Era como se, ao partir, estivesse deixando mais da metade de mim. Não é a mesma coisa viajar sozinho, quando se é casado, e tem um filho novo, a aprender coisas novas a todo momento. E ele, ali no aeroporto, alheio ao que se passava, sorria e se divertia naquele ambiente diferente, como se de um parque de diversões se tratasse
. Definitivamente, não é uma boa sensação. Gostaria de tê-los trazido comigo.
Apesar da saudade, a vida continua, e chegou o momento, já dentro do avião, de servirem algumas bebidas. São 17h30 do dia 09 de julho de 2011, no horário de Brasília. Devo mencionar que essa aeronave parece ter uma estabilidade bem maior que a concorrente do país vizinho, com a qual fiz minha primeira viagem. Embora, um pouco mais cara, mas foi a própria empresa que escolheu. A decolagem, pelo menos, foi muito tranquila. Trabalho em uma empresa alemã, que me mandou para a Alemanha, em uma empresa aérea alemã. Por que será? Esse país, de alguma forma em parte procurada por mim, mas por outra me imposta pelo próprio destino, ronda minha existência como uma segunda pátria, mais presente em minha vida até mesmo que aquela que, por direito de sangue, deveria ser minha “outra” pátria. Curioso… Mas mais curioso ainda seria se, nesse momento de escolher as bebidas, eu não escolhesse a mais alemã de todas as bebidas: a cerveja.
Sim, a cerveja alemã é servida “quente” (em temperatura ambiente). Mas, de alguma forma, é boa mesmo assim. Na verdade, uma cerveja quente alemã é mais gostosa que uma cerveja trincando brasileira. Bendito seja o Reinheitsgebot! (Lei da pureza da cerveja.) Uma lei tão simples, medieval, mas ainda vigente e cumprindo, inteligentemente, o propósito a que foi criada. Em outras palavras: os legisladores bávaros de 500 anos atrás humilhavam os nossos contemporâneos tupiniquins de Brasília e das demais capitais de nosso Brasil, que só sabem fazer leis idiotas para proteger idiotas das coisas mais idiotas e da maneira mais idiota possível, e aumentar os próprios salários, é claro. Mas, voltando ao assunto, junto com a latinha de Warsteiner (cujo s é escrito como uma integral, essa observação é fundamental) veio um pacotinho de Salzstangen. Salzstangen! Meu paladar, apesar de não provar essa iguaria há mais de dois anos, imediatamente se animou! Trata-se simplesmente de algo tipo aqueles “Torcida” ou algo assim, mas em formato de palitinho e com uns cristais de sal grosso incrustados. É simples, mas junto com uma cervejinha, é delicioso.
Nesse ponto eu pensei… ainda me perguntam por que eu gosto da Alemanha. O que foi mencionado até aqui já devia dar uma idéia geral do porquê. Mas não me é problema sumarizar: os caras têm cerveja melhor, avião melhor, aeroportos melhores, leis melhores, petiscos melhores… Bem, no quesito aeromoças, não nego que os vizinhos do oeste sejam competitivos. Mas até nisso, com o mais sincero julgamento, pelo menos com base nos poucos vôos que efetuei, foram superados. Claro que nunca viajei em uma companhia aérea sueca, que deve ser, imagino, difícil de bater. Mas, encerro aqui esse assunto, a fim de preservar minha integridade física quando voltar não levantar possíveis objeções conjugais.
Cheguei no hotel, em Gifhorn. O hotel é meio afastado da cidade, que é pequena. A internet, só por wireless. Ou seja: sem note, sem net. Também não tinha como ligar de cabines ou do celular, pois não tinha ainda verificado onde poderia comprar cartões ou recarregar o celular, da empresa, com chip local (daqui). O avião desceu hoje de manhã em Munique. De lá, peguei outro para Frankfurt. De lá, peguei um trem para Wolfsburg. Aquela paisagem dos campos de trigo, coisa tão normal pras pessoas daqui, mas tão bonitos para mim! Uma plantação que não é verde. Isso é algo, sem dúvida, interessante. Mais ainda quando, ao sol da tarde, tem a cor do ouro. Enfim, cheguei em Wolfsburg (em plena época de copa do mundo de futebol feminino!), e de lá, peguei o táxi até o Hotel, e assim aqui estou. Com o problema mencionado: incomunicável. Sem poder mandar um “cheguei, tá tudo bem”, e nem contactar o rapaz da empresa que amanhã vai me mostrar todos os esquemas. Mas, além desse é digno de nota que ainda não saciei minha vontade de apreciar um delicioso Döner.
Bem, algumas horas depois, resolvi o problema de encontrar o cara, que teoricamente estaria no mesmo hotel, indo conversar na recepção. Aproveitei e jantei um Schnitzel “Italiener Art” – algo como um bife suíno a milanesa com mussarela e tomate e molho de manjericão. E agora, de barriga cheia, corpo e mente cansados, e mal dormido (pq não consigo dormir no avião, assisti uns 3 filmes, tentei fechar os olhos, botar a cobertinha, mas dormir mesmo, nada), a cama se me apresenta de forma extremamente tentadora, e entregar-me a ela parece ser a melhor coisa a fazer por agora.
Devo salientar que, pelo menos até agora, não precisei fazer uso do inglês. Será um milagre? Será que, depois de dois anos sem praticar, meu alemão melhorou? De qualquer forma, estou cansado demais para pensar nisso por enquanto. Gute Nacht!








